Rio Tinto Sociedade

USF Nascente celebra 20 anos a olhar pelo futuro dos cuidados de saúde primários

Domingos Gonçalves e Lídia Oliveira

A Unidade de Saúde Familiar (USF) Nascente, integrada no Centro de Saúde de Rio Tinto, assinalou, no dia 4 de setembro, o seu 20.º aniversário. Criada em 2006, foi uma das primeiras Unidades de Saúde Familiar a surgir em Portugal, assumindo um papel pioneiro na reforma dos cuidados de saúde primários.

Duas décadas depois, a data foi assinalada por profissionais que acompanharam o percurso da unidade desde o início e por quem hoje dá continuidade a esse projeto. Entre as memórias de um caminho marcado por conquistas e obstáculos, fica também a preocupação com o futuro do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e com a necessidade de recuperar os valores que estiveram na origem da reforma.

Domingos Gonçalves, fundador da USF Nascente, olha para os 20 anos da unidade com satisfação, mas também com alguma preocupação relativamente ao atual contexto dos cuidados de saúde primários. “Significa um percurso de 20 anos em que muito se passou, ultrapassámos obstáculos, houve muitas conquistas e esta satisfação enorme de chegar aqui, passado 20 anos, e estarmos a comemorar essa data”, afirma.

Para o fundador, a criação da USF Nascente representou uma mais-valia para o Centro de Saúde de Rio Tinto, sobretudo numa altura em que muitos utentes não tinham médico de família. Domingos Gonçalves recorda que a unidade esteve na linha da frente da implementação do novo modelo de organização dos cuidados de saúde primários. A USF Nascente, juntamente com as USF Valongo, Sobrado e Condeixa, esteve entre as quatro unidades pioneiras. “Fomos as quatro pioneiras e continuaremos a ser sempre a bandeira para que a reforma dos cuidados primários continue para o futuro”,defende.

Duas décadas depois, porém, o cenário é diferente. O fundador da USF Nascente recorda que o SNS chegou a ocupar uma posição de destaque nos rankings internacionais. “O SNS chegou a estar classificado no ranking dos serviços nacionais de saúde em 12.º lugar. Dá para percebermos a qualidade que tinha o nosso sistema nacional de saúde”, afirma e acrescenta que “infelizmente, passados 20 anos, o contexto é diferente e naturalmente nota-se, a nível das equipas das USF, um certo desencanto, o que para mim é um pouco perigoso. Sentir que, de facto, houve algo que se projetou e as pessoas não sabem de facto a direção em que caminhamos”, alerta.

Uma das questões que mais preocupam Domingos Gonçalves é a integração das USF nas Unidades Locais de Saúde (ULS), posição que contesta. Apesar das preocupações, o fundador mantém uma visão otimista sobre o futuro. Recorda que, há 20 anos, também existiam dúvidas e descrença relativamente à capacidade de mudar o modelo dos cuidados de saúde primários. “Para as pessoas acreditarem que o futuro há de ser melhor. O ambiente na altura também não era o melhor, havia um desagrado com os centros de saúde. Conseguimos mudar todo o paradigma, ninguém acreditava, muitos diziam que éramos “loucos” e cá estamos passados 20 anos”, recorda.

Por isso, deixa uma mensagem de esperança: “É possível acreditar e mudar. Tenho esperança de que daqui a 20 anos o ambiente será ainda melhor que neste momento”, conclui.

Lídia Oliveira, atual coordenadora da USF Nascente, acompanha de perto a história da unidade. Está na USF há cerca de 13 anos, onde fez o internato e a especialização, e assume a coordenação há três anos. “Tem sido um percurso interessante porque acabo por acompanhar a reforma dos cuidados primários quase desde o início. Os 20 anos da USF são quase os 20 anos da minha carreira e é um paralelismo muito interessante”.

A médica destaca o carácter pioneiro da unidade, criada a 4 de setembro de 2006. “A USF Nascente foi das primeiras que nasceu em Portugal, a 4 de setembro de 2006. Temos muito orgulho nisso. Somos as impulsionadoras da reforma dos cuidados primários em Portugal”, sublinha.

A passagem do modelo tradicional dos centros de saúde para as USF representou, na sua perspetiva, uma mudança profunda na forma de organizar os serviços e de trabalhar com os utentes. Questionada sobre se os cuidados de saúde primários precisam atualmente de uma nova reforma, Lídia Oliveira considera que o caminho passa, antes de mais, por recuperar e valorizar os princípios que estiveram na origem do modelo.

“Não diria que estamos a precisar de uma nova reforma. Estamos a precisar de uma valorização e de relembrar os valores da reforma inicial”, defende. Na sua opinião, a proximidade com os utentes, a melhoria da qualidade do atendimento e o trabalho em equipa foram alguns dos pilares fundamentais da mudança.

“Começámos com muita força, comprometimento e proximidade com os utentes, melhoria da qualidade do atendimento, uniformização, que não acontecia nos centros de saúde. Acho que esses valores, por questões políticas ou sociais, estão a ser esquecidos. Se houver novamente esta valorização, de perceberem o que são os cuidados de saúde primários e da importância que tem um médico e um enfermeiro de família, temos toda a base para que melhore todo o sistema”, afirma.

Entre os valores que considera fundamentais estão “a união, o trabalho de equipa, a valorização do cuidado de família, a proximidade, a continuidade, o comprometimento, abraçar a comunidade e a valorização do profissional de todas as categorias profissionais”. 

Para o futuro, Lídia Oliveira imagina uma USF ainda mais multidisciplinar, onde diferentes profissionais possam trabalhar em conjunto no mesmo espaço. “No futuro ideal seria termos uma USF em que pudéssemos ter um dentista, mais nutricionistas, mais psicólogos, mais gente no mesmo edifício, com a polivalência de tratamentos”, aponta.

Ao assinalar os 20 anos da USF Nascente, a atual coordenadora faz questão de reconhecer o trabalho de quem esteve na origem do projeto e de todos os profissionais que contribuíram para o seu desenvolvimento. “Agradeço ao fundador, Domingos Gonçalves, pela força que teve, pelo tempo que despendeu da sua vida para se dedicar inteiramente à USF Nascente, à equipa atual, aos utentes e a todos os que nos ajudam a evoluir”, afirma.

Duas décadas depois da sua criação, a missão da unidade mantém-se clara: “Cuidar com dedicação e resiliência”.


   

 

 

 

 

 

 

 

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