Uma fotografia registada em Fânzeres durante o eclipse lunar de 28 de agosto foi escolhida como Astronomy Picture of the Day pela NASA. A história da imagem começou às quatro da manhã, perante um céu carregado de nuvens.
Há fotografias que resultam de um plano rigoroso e outras que acontecem quando a preparação encontra o acaso. A imagem a que dei o título “A Plane Lunar Eclipse” pertence à segunda categoria — embora o acaso só tenha ajudado porque eu estava no terreno, com a câmara pronta e disposto a esperar.
Na madrugada de 28 de agosto de 2026, levantei-me às quatro horas para fotografar o eclipse parcial da Lua. Queria acompanhar a sua evolução numa sequência destinada a um timelapse. Escolhi Fânzeres, no concelho de Gondomar (onde resido atualmente), sem imaginar que uma imagem captada ali viria a percorrer o mundo. A meteorologia parecia pouco favorável: as nuvens ora deixavam perceber a Lua, ora escondiam-na quase por completo.
Nessas horas surge a dúvida: valerá a pena continuar? A fotografia de natureza ensinou-me que desistir elimina qualquer possibilidade de surpresa. Permaneci no local e, às 06h18, quando a Lua se encontrava já na fase descendente do eclipse, um avião acabado de descolar do Aeroporto Francisco Sá Carneiro entrou no enquadramento. Durante um instante brevíssimo, a silhueta da aeronave cruzou o disco lunar. Como a câmara fotografava sequencialmente, registou o encontro no momento exato.
Não houve tempo para antecipar a trajetória ou alterar a composição. O avião não fazia parte do plano, mas deu outra dimensão à fotografia. Tive sorte: bastariam alguns segundos de diferença na descolagem, uma alteração de rota ou uma nuvem mais espessa para a imagem não existir. Mas a sorte raramente trabalha sozinha. Foi necessário montar o equipamento, manter a sequência durante horas e não desistir. O acaso ofereceu o avião; a persistência garantiu que a câmara estava a fotografar.
Ao rever as imagens, percebi que aquele fotograma tinha uma força própria. A Lua eclipsada já seria fascinante, mas a silhueta do avião introduzia uma escala e uma narrativa humanas. Dentro daquele pequeno contorno viajavam dezenas de pessoas, cada uma com o seu destino. Imaginei-as a observar o fenómeno pela janela. Ao contrário de um eclipse solar, um eclipse lunar pode ser visto de toda a metade da Terra voltada para a Lua.
Dois dias depois, a fotografia foi divulgada pela Sky–APOD. A 1 de setembro, soube que tinha sido escolhida como Astronomy Picture of the Day. Criada em 1995, a APOD apresenta diariamente uma imagem relacionada com o Universo, acompanhada de uma explicação de astrónomos profissionais, e tornou-se uma referência internacional de divulgação científica. Ver a minha fotografia nesse espaço, com o crédito e a indicação de Portugal, foi difícil de descrever.
O reconhecimento ultrapassava o autor: a história dizia Fânzeres e Gondomar; o avião remetia para o Aeroporto do Porto. Uma imagem local, feita sem uma grande produção e sem sair do concelho onde nasci e resido, alcançava uma audiência mundial. O Município de Gondomar, o Aeroporto do Porto e diversos órgãos de comunicação social partilharam-na. Uma fração de segundo prolongava-se agora em milhares de olhares.
A fotografia aproxima ciência e arte. Num eclipse lunar, a Terra posiciona-se entre o Sol e a Lua e projeta a sua sombra sobre o nosso satélite. O avião cria um contraste de escalas: enorme no quotidiano, torna-se minúsculo perante a Lua, também ela um pequeno corpo no Sistema Solar. Talvez por isso a imagem tenha encontrado eco entre amantes de astronomia, aviação e fotografia — e em todos os que ainda aceitam o convite para olhar para cima.
Naquela madrugada, a recompensa não foi apenas a escolha da APOD. Foi ter assistido ao eclipse e confirmado que vale a pena estar disponível para o inesperado. Se tivesse ficado na cama por causa das nuvens, o avião teria descolado na mesma e o encontro teria existido sem ser registado. A persistência não garante o resultado, mas cria as condições para que algo aconteça. Caso contrário, corremos o risco de ficar sentados no sofá, à espera de que alguma coisa nos caia do céu.