Aos 75 anos, José Coelho dedica-se à construção de cascatas sanjoaninas, uma tradição que o acompanha desde a infância. Reformado e apaixonado por esta arte popular lamenta o desaparecimento gradual dos costumes de antigamente e deixa um apelo às novas gerações para que mantenham viva uma das expressões mais emblemáticas das festas de São João. A última cascata realizada está exposta na montra no Café Petúnia em S.Cosme.
Como surgiu a sua paixão pela construção de cascatas?
Na minha geração, quando éramos miúdos, gostávamos muito desta tradição. Andávamos de um lado para o outro à procura das melhores cascatas para visitar. Antes de me casar fazia cascatas todos os anos, mas depois do casamento acabei por parar durante algum tempo. Recentemente resolvi retomar esta atividade porque tinha muitas saudades desses tempos. Cheguei a fazer cascatas no terraço da minha casa.
O que o levou a regressar a esta tradição?
Quando me reformei comecei a dedicar-me novamente às cascatas e nunca mais parei. Tenho pena que esta tradição esteja a desaparecer. Deixo um apelo aos mais jovens para que a mantenham viva. Atualmente muitas pessoas vivem em apartamentos e não têm espaço para construir estas obras, o que também dificulta a continuidade desta tradição.
Já realizou vários trabalhos. Há algum que queira destacar?
Todas as cascatas são diferentes e especiais. Uma das mais recentes chegou a ser reportada pela National Geographic. Fui desafiado a construir a Torre dos Clérigos, e juntamente com essa construção acabei, também, por recriar a Ponte D. Luís. São trabalhos que exigem muito cuidado e dedicação.
Como são construídas estas cascatas?
Utilizo essencialmente madeira, rede e tinta. Os bonecos não são feitos por mim, mas tudo o resto é da minha autoria. Nesta cascata procurei representar a vista de Gaia para o Porto. Apesar de estar satisfeito com o resultado, se a voltasse a fazer hoje, certamente alteraria alguns pormenores.
O que sente ao ver a reação do público?
Sinto-me muito feliz quando as pessoas apreciam e elogiam o meu trabalho. Quando montava as cascatas em minha casa recebia visitantes de vários países, como Austrália e Canadá. O meu genro costuma tirar fotografias e divulgar os trabalhos, o que desperta a curiosidade das pessoas e faz com que nos visitem.
Quanto tempo demora a construir uma cascata?
A montagem desta cascata no café demorou cerca de três horas e contou com a ajuda de três pessoas. No entanto, toda a estrutura foi preparada previamente em casa para que tudo encaixasse na perfeição. No total, a construção demorou cerca de um mês. Quando queremos atingir um resultado de qualidade, é preciso tempo e paciência.
Como surgiu a oportunidade de expor este trabalho no café Petúnia?
O senhor Alberto viu fotografias das minhas cascatas no telemóvel do meu genro e quis logo que trouxesse uma amostra para aqui. Há pouco tempo tive exposta a Ponte D. Luís e agora está a cascata.
A tradição das cascatas mudou muito ao longo dos anos?
Mudou bastante. Tenho pena que isto esteja a desaparecer. O São João antigamente era vivido de uma forma completamente diferente. Havia mais participação e mais tradição. Infelizmente, já não é a mesma coisa.
Este hobby implica um grande investimento?
Sim. Tenho muito dinheiro investido ao longo dos anos. Como não faço os bonecos, tenho de os comprar e já cheguei a pagar cerca de 150 euros por santos e outras figuras. Eu faço apenas os edifícios, os cenários e os espaços envolventes.
A sua profissão ajudou-o nesta arte?
Sem dúvida. Fui torneiro mecânico e essa experiência deu-me muitas competências para trabalhar materiais e construir as estruturas necessárias para as cascatas.