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Henrique Calisto: “Sermos eliminados na fase de grupos era uma catástrofe”

Henrique Calisto é uma das figuras mais respeitadas do futebol português. Treinador de várias gerações, fundador da Associação Nacional de Treinadores de Futebol, sediada em Rio Tinto, e recentemente reeleito para liderar a instituição. Estivemos à conversa com esta figura emblemática do futebol para saber as perspetivas para o Mundial 2026, que começa hoje (11 de junho).

Como vê o estado atual do futebol português, enquanto técnico?
Em termos de jogo e resultados desportivos, em termos de seleções, estamos muito bem. As nossas seleções de formação foram campeões do mundo, da europa, estão nas fases finais, há uns anos a esta parte. Em termos de formação estamos bem no que aos resultados diz respeito. Em termos de aproveitamento desses jovens para as equipas, não estamos assim tão bem. As equipas portuguesas cada vez menos têm portugueses a jogar. Na transição para o futebol sénior, em termos gerais, há um grande abandono. Em termos de elite não há o aproveitamento que devia ser feito. Não temos atletas nos séniores nem na primeira divisão. As equipas têm tendência a chamar estrangeiros para ter uma rentabilidade imediata. Um jogador de formação carece de tempo. Como as Sad’s precisam de dinheiro rapidamente aproveitam jovens estrangeiros para rentabilizar no ano seguinte. Se temos os melhores do mundo porquê que eles não vão jogar? 

Como caracteriza o estado atual da profissão de treinador em Portugal?
Os regulamentos dos treinadores no estrangeiro são mais protetores relativamente à profissão do que em Portugal. Aqui um treinador sente que se perde vai embora, tem de fazer pela vida para que não perca os jogos. Um mau espetáculo não vende. Enquanto pior for o espetáculo não se vende. Porque defende-se o não perder em detrimento do ganhar, o espetáculo torna-se mais pobre. Há uma insegurança na continuidade dos treinadores no seu posto de trabalho. 

É mentalidade?
Sim. É uma mentalidade e uma filosofia em que os presidentes têm pouca autoridade. Basta a claque fazer algumas movimentações para que o treinador saia e sai mesmo. Somos, muitas vezes, governados pelas minorias barulhentas do que das maiorias silenciosas. 

Sentiu isso na pele?
Claro. É transversal. Dificilmente irá mudar, clubes com dois ou três treinadores durante a mesma época não é admissível. Ou um treinador tem um lastro de impacto na massa associativa, ou já ganhou, ou já subiu o clube, ou tem alguma margem de crédito, o resto muito dificilmente se sustenta. Há exemplos concretos, da época passada, que ganharam, e ainda assim, foram embora. Isto não acontece com frequência nos grandes países como a Alemanha, Inglaterra, Espanha, há mais confiança em projetos. Em Portugal o único projeto é ganhar dinheiro rapidamente para pagar as contas e ter resultados. 


É possível legislar?
Os clubes não deixam (silêncio). Os clubes é que fazem o regulamento das ligas. É importante que a própria Federação tenha interferência na legalidade nas provas da Liga. 

⁠Regressa à presidência da ANTF quase quarenta anos depois da sua fundação, o que o motivou?
Apesar de ser licenciado em desporto, intitulo-me como treinador de futebol. É a minha vida. Fui jogador e professor, mas a minha vida é o futebol. Os treinadores de futebol, cada vez mais, no que concerne à formação, são indispensáveis. Uma infância onde o movimento e a ação é quase nula. Cada vez mais, as crianças são analfabetas motoras, devido ao excesso de proteção dos pais, de não haver sítios para brincarem, na escola a brincadeira é muitas vezes quartada e sobrevalorizada, em relação às aulas. Isto é inadmissível. Há uma filosofia em que o corpo não é importante. Continuamos a pensar que a formação cognitiva é sempre a sala de aula e não é verdade. Por trás de cada movimento há sempre um desenvolvimento cognitivo. 

 

Que momentos da sua carreira considera mais marcantes para a pessoa e para o treinador que é hoje?
Ganhar. Ganhamos aqui, fomos campeões na segunda divisão pelo Rio Ave, subimos o Varzim, Salgueiros, levar o Boavista à Europa. No Vietname, onde estive dez anos seguidos. Na China, também, conquistamos os nossos objetivos. É quando atingimos os nossos objetivos, não é só ganhar. Nós desvalorizamos os trabalhos que não têm impacto no título, mas são importantes para a manutenção de muitos clubes. Diria que ser treinador dos três grandes sujeita-se a ser campeão, agora não descer de divisão para algumas equipas é um trabalho bom. Nós treinadores temos a perceção que sustentamos a carreira com vitórias. É preciso ter sorte, mas não há sorte se não houver trabalho. O Toni, por exemplo, não foi campeão europeu porque o Veloso não marcou o último penálti e era o melhor a marcar penáltis. Este pormenor ninguém em consideração. Se o penálti entra era campeão Europeu. Treinaria qualquer equipa do mundo, é a tal pontinha de sorte que falava....

⁠⁠Como vê a preparação da Seleção Nacional, bem como o impacto na comunidade?
Vimos no último jogo de preparação o estádio cheio. Há entusiasmo e apoio. Contudo tenho algumas dúvidas em relação à preparação, não estou dentro, mas numa análise superficial, nos Estados Unidos está calor e humidade, Houston são temperaturas altas, e irmos cinco dias antes parece-me curto. Somos das seleções que vai chegar mais tarde aos EUA. Esse é o problema que vejo, porque temos uma equipa técnica muito multifacetada, competente, e isto foi fruto de estudo. Há um voto de confiança porque a equipa técnica é extremamente competente. 
Em relação à seleção nacional, é muito experiente, tem uma média de 26 anos, não é uma seleção velha. A Colômbia tem uma média mais alta, por exemplo. Não somos os grandes favoritos. Os que o são e tendo por base a sua história, que conta muito, é quem já foi campeão, Brasil, Espanha, França, Argentina, Inglaterra, estas cinco seleções são as que têm mais favoritismo. Nós somos candidatos. Das equipas que ainda não foram campeãs, somos a única que está neste lote de favoritos. 

Quais são, na sua opinião, os principais pontos fortes e fracos da equipa portuguesa?
Em termos de concretização temos algumas deficiências. Enquanto ponta de lança temos o Cristiano Ronaldo, que queiramos ou não, já não tem a mesma disponibilidade motora que tinha há 20 anos. O ponto menos forte é a finalização. Ao invés temos um meio-campo fortíssimo. 

Se fosse Henrique Calisto a escolher a equipa seria: Ronaldo mais dez?
É muito difícil um treinador fora fazer esse juízo de valor. O Cristiano já não é o que era. O peso que tem torna-se muito importante para a nossa seleção. Não só pelo prestígio que traz e pelo impacto que traz para o jogo.  A equipa em termos ofensivos tem de jogar em função do Cristiano. 

É uma utopia sonhar com o título de campeão do mundo?
Não. Repare se entrarmos em algum europeu, somos imediatamente candidatos e favoritos, porque já o fomos outrora. Temos um prestígio, mas a verdade é que a nossa melhor prestação no Mundial é de 1966. Faz 60 anos. 

 

Qual considera ser o objetivo mínimo aceitável para a Seleção?
Se não formos às meias-finais não é tão bom. Quartos ou meias é o mínimo. Sermos eliminados na fase de grupos era uma catástrofe. É uma humilhação ao nível de saltilho.  

Concorda com o que se diz, que independentemente de, Roberto Martinez, fazer uma boa campanha, está fora da seleção?
É o que se diz. Há ciclos. Ganhamos a Liga das Nações pela segunda vez. Ser treinador tem ciclos. Em termos de resultados foi bom, em termos de prestação, beleza, estética, sempre teve muitas críticas. 

Está-se a preparar o caminho para Jorge Jesus?
Não diria preparar, diria que é uma inevitabilidade. É um ciclo normal. É merecido. É justo. É dos treinadores que teve uma melhor carreira, conquistada a pulso, com uma liderança muito própria. Tem características que é único. Tem feito uma carreira ótima. Acho que é um dos candidatos, apesar de achar que há mais.

Que ⁠⁠mensagem quer deixar para os portugueses e para os jogadores da seleção nacional?
Quando chegarem aos Estados Unidos que tenham atenção que perto de 11 milhões de portugueses estão a olhar para eles. São de facto a grande bandeira de Portugal. É uma grande responsabilidade. É quase obrigação darem os 100%, se o derem e não ganharem, ótimo não há problema nenhum, mas estar disponível a 100% de servir o país a qualquer momento é um dever e uma honra para qualquer jogador. É fundamental. 

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