Aos 48 anos, Helga Paiva, conhecida artisticamente como DJ Miss Bliss, continua a viver a música com a mesma paixão que a acompanha desde que entrou neste mundo. Residente em Zebreiros, onde escolheu viver por gostar da terra, mantém uma forte ligação à comunidade e é presença habitual nas festas populares da região. Com um percurso de mais de duas décadas ligado à música, passou pelas discotecas, tornou-se DJ residente, produtora e, há cerca de dez anos, encontrou nas festas populares o seu principal palco. Pelo caminho, acumulou histórias, parcerias e projetos, sem deixar de lado uma dimensão mais discreta da sua vida: há seis anos que é voluntária no IPO, nos cuidados paliativos.
Quem é a mulher por detrás da DJ Miss Bliss?
Tenho 48 anos e moro em Zebreiros. Não fui morar para Zebreiros por causa de ninguém, mas porque gostei da zona e comprei lá casa. Tenho muito orgulho em morar lá. É uma terra que ajudo sempre que posso. Faço isto com muito amor e muita paixão.
Como surgiu o nome DJ Miss Bliss?
O meu nome é patenteado. Sempre pintei o cabelo de loiro, apesar de o meu cabelo ser castanho, e gostava muito de ser loira. Gosto muito de loiras (risos).
Então sugeri “Miss Blonde”, mas já existia. Não havia ChatGPT na altura (risos). Fomos ao Google procurar sugestões de nomes e descobrimos que “bliss” significa o êxtase da alegria. Então decidimos que ficaria DJ Miss Bliss.
Como começou o seu percurso na música?
Começou há muitos anos. O meu pai tinha casas noturnas em Ibiza e cresci no meio da música. Para mim, foi muito fácil querer entrar nesse mundo.
Fui tirar um curso na Dance Planet e, logo nessa semana, fiquei residente de uma grande discoteca, o Industrial, em Lousada. Trabalhei com esse patrão durante sete anos seguidos e, depois disso, foi uma continuidade.
Há cerca de dez anos decidiu dedicar-se sobretudo às festas populares. Porquê?
Há dez anos que me dedico quase exclusivamente às festas populares e raramente faço outras coisas. Honestamente, porque os ganhos são mais elevados e, em segundo lugar, porque acho que é mais aquilo de que gosto. Sou uma DJ de festa. Embora toque todos os estilos musicais, porque durante 15 anos fui DJ residente e consegui aprender a tocar todos os estilos e a dominá-los. Também sou produtora.
Como consegue conciliar a atividade de DJ com os restantes projetos profissionais?
Concilio bem porque tenho funcionários que me apoiam e consigo fazer uma boa gestão. Além da Tecnoprolab, já tive um bar na praia de Matosinhos, o Contrabando. O meu pai, na altura, avisou-me de que não ia gostar daquela experiência, mas tive de a fazer na mesma. Efetivamente, passado meio ano, estava a vender o espaço ao meu concorrente. Era a maior prisão que alguém pode ter. As pessoas são muito irresponsáveis no que toca a trabalhos no horário noturno. Foi muito esgotante.
Já pensou em deixar a carreira de DJ?
Desde os meus 42 anos que digo que vou deixar este trabalho, mas ainda não o fiz. Tinha delineado que seria este ano, mas não vai ser, porque já fechei datas para o próximo ano (risos). Tive sempre a ideia de tocar até aos 40 e depois deixar, mas agora poderá ser até aos 50.
Quando vai tocar a um arraial, prepara antecipadamente o alinhamento musical?
Não faço uma pré-lista das músicas. Levo uma pen que tem todas as músicas, olho para as pessoas e percebo o que tenho de tocar naquele momento.
Há músicas que faço questão de que toquem sempre. Por exemplo, a música portuguesa faz sempre parte do meu espetáculo. Começo sempre com música pimba e vou passando por vários estilos para conseguir agradar a toda a gente.
Não gosto que as pessoas estejam apenas a ouvir. Prefiro que estejam a dançar.
Nas festas que faço sozinha, levo sempre polos de LED.
Tem uma parceria muito próxima com Marcus. Como nasceu essa ligação?
O Marcus é meu amigo desde os 14 anos. Como fiquei logo DJ, houve épocas em que o Marcus teve hits que tocavam em tudo o que era discoteca, agora há poucas, mas antigamente havia muitas, e ele era convidado todos os fins de semana para ir cantar, nem que fosse três ou quatro músicas. Nessa altura, eu acompanhei-o. Agora chegámos a um acordo: em todas as festas que ele tenha e eu esteja livre, acompanho-o e faço todo o instrumental dele.
Tem também trabalhado na produção musical. Há novidades a caminho?
Tirei o curso de produção musical com o Eric Faria. Todas as músicas que tiveram sucesso foram feitas com ele. Neste momento, está mais inclinado para o “house”, por isso atua mais para fora. Tenho também uma produção musical com o Marcus. Fiz o remix de uma música, mas o responsável pelos direitos de autor não aceitou essas alterações. O Marcus escreveu a letra e lançámos a música, que se chama “Meu Povo”. Entretanto, ainda haverá mais novidades.
Como olha para as discotecas de há 25 anos e para as de hoje?
É muito diferente. Naquela altura era uma alegria, havia uma orgânica que agora não existe. Passámos por uma mudança de geração. Os jovens que frequentam atualmente as discotecas não vão com o mesmo sentido que nós tínhamos. Na altura, havia um público muito mais focado na música.
Hoje, ninguém liga muito ao que está a tocar. Ainda sou do tempo em que parava de tocar e colocava um slow. As pessoas contavam as horas para chegar aquele momento. Nos dias de hoje, seria impensável. Embora eu ache que vamos voltar a mudar de era. Os jovens têm sede do antigamente.
A imagem que o público vê nas redes sociais corresponde à sua vida fora dos palcos?
As pessoas não têm noção da vida de ninguém, porque nas redes sociais só colocamos aquilo que queremos. Ninguém tem noção de que sou voluntária no IPO, nos cuidados paliativos, todas as quintas-feiras, através de uma parceria com a clínica APRE. Essa parceria existe há seis anos. É um projeto que foi construído pelos meus padrinhos e tenho muito orgulho em fazer parte dele.
Só publicamos aquilo que nos traz benefício para o trabalho.
Para terminar, há pessoas a quem gostaria de deixar um agradecimento especial?
A tanta gente... Ao Mondego, ao Marcus, ao Jorge, que foi meu patrão durante seis anos. E ao Vicente, que era o DJ do Lamovida e que, infelizmente, já faleceu. E, claro a toda a minha família pelo apoio incondicional, sem eles isto também não seria possível.