Entrevista

Grande Entrevista com: HELENA SACADURA CABRAL: “A felicidade não existe. O que existe são momentos de felicidade que nos ajudam a ultrapassar os maus momentos”

Texto: ANDRÉ RUBIM RANGEL, jornalista
([email protected])


Helena Aires Trindade de Sacadura Cabral nasceu em Lisboa, a 7/12/1934. É economista, professora, jornalista e, sobretudo, escritora muito conceituada e acarinhada pelo público, com vasta obra literária. No passado, pertenceu aos quadros técnicos do Banco de Portugal e foi técnica superior do Instituto Nacional de Aviação Civil. É mãe do ex-vice-primeiro-ministro Paulo Portas e do falecido eurodeputado Miguel Portas.

O facto de ter sido sobrinha do aviador Sacadura Cabral, um oficial tão histórico e importante da Marinha Portuguesa, isso repercutiu-se na sua pessoa, apesar de não o ter conhecido? Se bem que ficou o “bichinho” ao ter trabalho no INAC…

No liceu sim, porque nessa altura o gesto foi considerado heroico. Com o passar do tempo esse apelido tornava-me elitista e tive alguma dificuldade em mostrar que o apelido não me definia. Tinha orgulho do meu apelido. Mas considerava-me igual a toda a gente. Essa foi uma das razões pelas quais escolhi o Liceu D. Filipa de Lencastre que era público e não uma boa escola privada. Fiz bem. Nessa altura o ensino era muito diferente de hoje! 

Como eram as conversas políticas na sua casa, dada a divergência ideológica e as responsabilidades partidárias existente entre os filhos: o Miguel do BE e o Paulo do PP? Que, por sua vez, têm uma meia-irmã ligada ao PS…

Em minha casa reinou sempre o respeito pelo pensamento dos outros. Logo os meus dois filhos fizeram escolhas políticas diferentes que nunca afetaram o enorme amor que ambos tinham um pelo outro. E sempre se ouviram sobre as escolhas que faziam. Eram dois irmãos que gostavam tanto um do outro, que não seria, nunca, a política que os afastasse. Relativamente à irmã, nada sei das suas opções pessoais ou profissionais. Era irmã dos meus filhos, mas não era minha filha e, portanto, deve ter tido outras influências. De qualquer modo sempre conviveu com os irmãos porque a minha casa sempre esteve aberta para ela!

Houve quem considerasse que se o seu filho Paulo Portas tivesse avançado à Presidência da República, com o apoio da AD, teria sido mais eficaz e teria mais votos do que Marques Mendes e Cotrim juntos. O que lhe parece? E desejaria que tal sucedesse?

É público que não gosto de política e, ainda menos, da versão que ela toma em Portugal. Quanto à eventual candidatura ele terá ponderado se o devia fazer ou não nas circunstâncias em que ela correu. E aí acredito que terá prevalecido o desgosto que me daria.

E de que modo reage à situação política, com crises acentuadas e lideranças enfraquecidas, que se vive não só em Portugal, mas na Europa e em algumas partes do mundo com radicalismos no poder?

Tenho na vida objetivos muito mais importantes do que a política. Preocupa-me muito mais ajudar a pensar quem nem sequer tem dinheiro para comer. Escrevo como uma forma de voluntariado da palavra e estudo muito para estar atualizada e poder compreender o difícil mundo de hoje.

Ao ser economista de formação, que análise faz do percurso que a nossa Economia tem atravessado até ao estado atual? O que deve/pode ser mudado para melhor?

Seria impossível numa entrevista destas responder a essa questão. Como economista não teria feito muitas coisas que se fizeram. Como cidadã tenho que as olhar por um prisma político e aí o problema torna-se complicado porque não pertenço a nenhum partido. E são eles que, entre nós, dominam a economia!

No seu livro «Nós de Amor» refere-se aos laços que nos unem. Mas esse “nós” também pode ser a pessoa do plural, a humanidade. No entanto, com tantas ofensas, barbaridades e violências, de que são feitas essas pessoas que não de amor?

O mundo rege-se por homens. Uns, que pensam no bem da humanidade. Outros, que pensam no seu próprio bem ou no dos países que dirigem. A guerra, a morte e a violência resultam do embate entre esses mundos. E enquanto o bem geral não dominar o mundo haverá sempre guerras.

Refere também nessa obra que é preciso desatar os nós que nos impedem da felicidade. E o que dizer das situações e pessoas que em vez de desamarrar preferem envencilhar os nós da vida e complicá-la mais e mais?

Em democracia todos têm direito a pensar como entendem, porque todos valem o mesmo. Se escolhemos a democracia para viver temos que aceitar os que não pensam como nós!

Dos seus mais de 45 livros publicados, parte deles são diretamente relacionados com o Amor, até pelo respetivo título. Sendo um dos temas de que mais gosta de escrever, qual a maior lição aprendida e que nos dá sobre ele? 

Sim, eu tenho 48 livros publicados. Amor é paciência, resiliência e vontade diárias. São elas que fazem durar esse sentimento. Esta talvez tenha sido a grande lição que aprendi com o amor dos meus avós maternos.

Também escreveu «Receituário: o prazer de cozinhar». De que modo alimentou esse prazer e o que mais a satisfaz de comer e, naturalmente, de cozinhar (se é que ainda o faz)?

Claro que ainda hoje o faço e com muito gosto. Adoro cozinhar, descansa-me e relaxa-me. E é uma prova de amor que dou àqueles para quem cozinho. Talvez seja esse gosto que me tenha levado a escrever cinco livros de cozinha.

Falando de felicidade e com a sua larga sabedoria e experiência de vida com 91 anos de idade, sente que teve nela nós muito emaranhados que a impedissem, em algum momento, de ser realmente feliz? Porquê?

A felicidade não existe. O que existe são momentos de felicidade que nos ajudam a ultrapassar os maus momentos. A felicidade ganha-se desta forma porque não há ninguém que seja permanentemente feliz.

E mesmo com o tanto que já viveu e bem vive com o belo legado que nos deixa pelos seus escritos e livros, o que ainda lhe deixa tão feliz e do qual não prescinde?

Do amor que dou e que recebo, porque ele é o fundamento da vida. Sem ele não se vive, sobrevive-se!

Com a sua mais recente obra (11/2025), a Editora que lhe publica considera ser “o seu livro mais profundo e envolvente” de todos os que escreveu. Concorda? E «Talvez Um Dia»… efetivamente o quê?

Concordo. Ele é o fecho de uma trilogia com os dois anteriores. E o talvez um dia… eu faça o que não fiz. Diga o que não disse… enfim tudo o que eu queira que ainda me aconteça.

Um dia, quando partir fisicamente deste mundo, como gostaria de ser lembrada e/ou reconhecida? Através de que feitos e obras suas?

Muito simples. “Aqui jaz alguém que construiu a sua própria vida sem atropelar ninguém”.

E sente-se uma mulher de fé, com espiritualidade, para aceitar bem a morte e acreditar que um dia estará na vida eterna, com todos os anjos e santos?

Sem qualquer dúvida. E espero ter a minha mãe e o meu filho à minha espera.

Sendo este jornal da área de Gondomar, tem alguma história e/ou memória aí vivida que nos possa relatar? Que considerações tece sobre esta zona geográfica?

Sou de nascença beirã e alentejana. Hoje a Beira marca-me mais do que o Alentejo. Conheço mal Gondomar. Mas um dia talvez venha a conhecer melhor.

Que mensagem final, com aquilo que de melhor poderemos desejar para este novo ano, pode deixar-nos e na esperança que se realize em prol de um mundo melhor?

Seguramente o fim das guerras. E, também, que Portugal encontre o rumo da glória.

 

Últimas Notícias

Mercadona fatura 41.858 milhões de euros em 2025 e regista lucro de 1.729 milhões

11/03/2026

"The Dollmaker" vence o prémio de melhor filme

9/03/2026

Marco Martins assegura 90% da normalidade na Corporação de Bombeiros Areosa-Rio Tinto

6/03/2026

Multiusos de Gondomar receber Congresso sobre Cuidados na Comunidade

6/03/2026

Gustavo Oliveira: “Apaixonei-me pela sensação de velocidade de estar a conduzir um kart, a 120kmh a 10cm do chão”

6/03/2026

GONDOMARENSES ADEREM AO PROJETO DESPORTO VAI À PORTA

6/03/2026

Clube Naval Infante Dom Henrique renova título de Campeão Nacional

6/03/2026

Maria Caldas sagra-se tricampeã da Taça Nacional CPK em Karaté

6/03/2026