Grande Entrevista com: LUÍS PORTELA
Texto: ANDRÉ RUBIM RANGEL, jornalista
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Luís António Silva Duarte Portela nasceu em Águas Santas – Maia, em 28/07/1951. É um antigo médico, professor universitário, empresário e presidente da Fundação Bial. No passado, foi: presidente executivo (1979-2011) e não-executivo (2011-2021) da farmacêutica BIAL, presidente do Health Cluster Portugal (2008-2017), presidente do Conselho Geral da U.Porto (2009-2013), vice-presidente da Fundação de Serralves (2001-2008) e membro diretivo da COTEC Portugal (2006-2012). Tem uns 10 livros publicados, entre os quais o best-seller «Ser Espiritual» (na 36ª edição). Foi distinguido com 5 doutoramentos Honoris Causa (por universidades ibéricas), possui vários prémios nacionais e internacionais e foi três vezes condecorado pelo Estado Português: Comendador da Ordem de Mérito (1992), Grã-Cruz da Ordem de Mérito (2002) e Grã-Cruz da Ordem de Instrução Pública (2020).
Sente que como médico, tendo sido docente universitário de Psicofisiologia, não só salvou muitos corpos / matéria corporal, mas também curou muitas almas?
Exerci clínica apenas durante três anos, no início da minha carreira; depois, aos 27 anos, optei por comprar a maioria do capital da empresa da minha família – Bial –, tendo assumido a sua presidência durante 42 anos, o que me levou a afastar-me da vida clínica. Mas gostei muito do meu contacto com os doentes e de lhes poder ser útil, física e psicologicamente.
Nesse processo, e entre corpo e alma, o que mais lhe satisfez realizar e porquê?
Sempre tive muito gosto em ser útil aos outros: doentes, familiares, amigos, conhecidos e até desconhecidos. Sempre tive muito gosto em ouvir quem me procura. Sempre tive muito gosto em partilhar experiências, conhecimentos, opiniões, conselhos. E claro que sempre vibrei de satisfação quando percebia que, de alguma forma, tinha sido útil a essas pessoas. Sempre gostei de ver as pessoas resolverem as suas questões físicas e psicológicas, mas, sobretudo, as questões de ordem espiritual.
Embora pense que cabe a cada um resolver os seus problemas e fazer o seu caminho, também considero que fazemos parte de um Todo Universal, onde cada um pode influenciar (positivamente ou negativamente) todos os outros. É muito bom percebermos isso e sabermos ajudar construtivamente. E ainda melhor quando o fazemos de uma forma absolutamente desinteressada, sem nada esperar e sem nada pedir em troca. Foi o que procurei fazer.
Dedicou uma vida inteira à empresa BIAL, à qual ainda pertence. Preocupa-lhe que o ser humano viva dependente, muitas vezes, de fármacos para viver melhor, sem dores?
Considero a terapia farmacológica muito importante para as pessoas poderem resolver ou atenuar os seus problemas de saúde, para viverem melhor e durante mais tempo. No início do século XX os europeus tinham uma esperança de vida à nascença de 42 anos e atualmente têm cerca de 81 anos, o que em boa parte se deve à ação benéfica dos medicamentos. Mas também penso que se deve evitar o uso dos medicamentos, sempre que possível: levando uma vida regrada, evitando excessos e procurando racionalizar a utilização desses medicamentos. Os profissionais de saúde em geral e, sobretudo, os médicos sempre podem ser os conselheiros apropriados para a busca das melhores soluções.
De que modo entende que se poderia controlar e equacionar muito melhor os efeitos secundários de tantos medicamentos, por vezes prejudiciais?
Procurando ter uma vida saudável e seguindo rigorosamente as prescrições médicas e os conselhos dos profissionais de saúde. Deixe-me dar-lhe um exemplo: os órgãos de comunicação social abordam por vezes o tema do excesso de consumo de ansiolíticos e de indutores do sono, como sendo um problema. Mas talvez o real problema seja comportamental, sendo o excesso de consumo desses medicamentos apenas uma consequência. Um número considerável de pessoas leva uma vida stressada, bebe vários cafés ao longo do dia, termina o dia focando a sua atenção em conflitos e desgraças e, por vezes, vendo filmes dramáticos ou de terror. E, depois, recorrem a ansiolíticos e a indutores do sono... Não seria preferível reverem os seus comportamentos e procurarem viver de uma forma mais serena e harmoniosa?
Recentemente foi distinguido, pela quinta vez, com um Doutoramento Honoris Causa. Que significado têm eles para si, a quem poderíamos chamar de «O Senhor Conhecimento»?
Ao longo da minha vida tenho procurado, como muitas outras pessoas, fazer as coisas bem; mas eu tenho tido a sorte de participar em grupos ou equipas com pessoas muito boas – competentes e de grande caráter –, o que tornou possível a realização de algumas coisas bonitas. E, por outro lado, também tenho tido a sorte de as pessoas à volta repararem em algumas das coisas bonitas em que eu tenho participado.
Que respostas e soluções nos dá a parapsicologia, no seu desenvolvimento e evolução? E por que lhe chama “a ciência do espírito”?
Parapsicologia é a disciplina científica que estuda os fenómenos e experiências que parecem indicar a existência de capacidades mentais de aquisição de informação; bem como a influência mental sobre sistemas físicos; e ainda a possibilidade de a consciência funcionar independentemente do cérebro e sobreviver à morte física.
Desde os anos 60 do século XX que um número crescente de investigadores tem desenvolvido um trabalho meritório, que tem vindo a ampliar o conhecimento científico sobre diversos fenómenos não explicados pelos paradigmas tradicionais e sobre a natureza da consciência e a sua relação com o mundo físico.
Tenho alguma expectativa de que a ciência possa esclarecer a humanidade sobre o que é, de facto, a consciência, a alma ou o espírito. Talvez a ciência – com uma importante participação da parapsicologia, mas num âmbito multidisciplinar – possa dar um importante contributo para o esclarecimento espiritual da humanidade.
Todo o seu trabalho e o financiamento que deu a 2.000 investigadores de todo o mundo já eram conhecidos, mas o programa televisivo «Para Além do Cérebro» catapultaram tais questões do poder mental, da telepatia e da mediunidade?
Em 1994, a empresa Bial e o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas criaram uma instituição independente, sem fins lucrativos e de utilidade pública – a Fundação Bial –, que tem sido gerida até hoje por representantes de ambos os fundadores. A Fundação procura incentivar o estudo científico do ser humano, do ponto de vista físico e espiritual, através de vários prémios – Prémio Bial de Medicina Clínica, Bial Award in Biomedicine e Prémio Maria de Sousa – e de um sistema de bolsas de investigação científica nas áreas da psicofisiologia e da parapsicologia.
Com estas bolsas, nos últimos 32 anos, a Fundação Bial apoiou 946 projetos científicos, envolvendo cerca de 1.900 investigadores, de 31 países. Cerca de metade dos projetos são em neurociências e a outra metade em parapsicologia. Como resultado desse trabalho, os investigadores publicaram cerca de 4.000 publicações científicas, algumas dando conta de resultados notáveis e até surpreendentes.
A administração da Fundação entendeu que muitos desses resultados são pouco conhecidos na academia e nada conhecidos do público geral. E decidiu realizar a série documental “Para Além do Cérebro”, que a RTP1 passou de maio a setembro de 2025 e que se encontra disponível na RTP Play. São 16 episódios de 30 minutos cada, onde 52 cientistas de universidades europeias e norte-americanas divulgam o que tem sido investigado cientificamente em áreas pouco conhecidas, como a telepatia, a precognição, as experiências de quase morte e a evocação de supostas vidas passadas.
Na prática, como lidam e se aplicam diretamente essas questões no ensino e nas consultas com utente, através, p. e., da neurociência e da psiquiatria?
A Fundação Bial só apoia com bolsas de investigação o estudo dos seres humanos normais; não apoia o estudo da patologia, nem da terapêutica. A Fundação está focada em contribuir para o esclarecimento do ser humano em termos fisiológicos, nomeadamente do seu sistema nervoso central, e em termos espirituais, nomeadamente a caracterização da consciência, da sua relação com o corpo físico e da sua eventual sobrevivência.
Como normalmente acontece no desenvolvimento científico, espera-se que os conhecimentos adquiridos, quer em neurociências, quer em parapsicologia, venham a ser progressivamente adotados na prática clínica, nomeadamente em neurologia, em psicologia e em psiquiatria.
O que mais o assusta e incomoda no rebuliço e stresse do dia-a-dia, daí ter escrito o livro «Serenamente», apelando a que sejam superados pela calma?
Penso que a fantástica evolução científica e tecnológica do último século foi demasiado focada na materialidade. Muitas pessoas como que se embriagaram na exploração do ter e do parecer, deixando para trás os valores do ser, os valores universais. Geraram-se importantes desequilíbrios sociais, ambientais, económicos e financeiros, que precisam de ser corrigidos.
Espero e desejo que o contributo para o esclarecimento que as neurociências e a parapsicologia vão realizando, sob o rigor do método científico, sobretudo a partir de universidades norte-americanas e europeias, crie condições para que a maioria das pessoas opte por assumir uma vida serena, em sintonia com os valores universais.
Em «Prazer de Ser» também evoca valores relacionados, tais como a paz, o silêncio, o bom senso e a sensatez, etc. Para si, por que se vão confrontando e perdendo tais valores essenciais?
Em minha opinião, os valores universais são isso mesmo: universais. Não se perdem. Apenas podemos distrair-nos com outras coisas; esquecendo-os temporariamente. O que terá acontecido com parte significativa da humanidade.
Agora, será importante que cada um de nós faça o seu percurso de autoaperfeiçoamento, recuperando o mais possível os valores universais. Deseja-se que seja criado um ambiente propício a isso, mas conscientes de que cabe a cada um fazer a sua parte, fazer o seu caminho de autoaperfeiçoamento.
Nesse mesmo livro, não esquece a religião, abordando Maomé, céu e inferno, milagres e almas perdidas. O que lhe significam cada um desses conceitos?
Não sou religioso. Embora respeite o importante papel que diversas religiões têm desempenhado na trajetória evolutiva da humanidade, não sinto necessidade de participar em práticas religiosas, nem em agrupamentos religiosos. Mas tenho uma enorme admiração por alguns mestres espirituais – como Jesus, Buda, Lao Tsé e Confúcio – que, em minha opinião, deixaram mensagens luminosas, fantásticas, para todos os seres humanos.
Sempre tive dificuldade em aceitar dogmas, mistérios, milagres e outros conceitos difundidos por diversas religiões. Penso que cabe à ciência, sob o rigor do método científico, esclarecer tudo isso, todo e qualquer fenómeno.
E que análise faz aos ataques que persistem sobre as minorias cristãs em muitos países, em detrimento de outras minorias, e sobre os muçulmanos em Portugal?
Admito que as radiosas mensagens dos grandes mestres espirituais não foram bem compreendidas por muitos daqueles que se disseram ou que se dizem seus seguidores, que terminaram por agregar em torno dessas mensagens muitos conceitos que nada têm que ver com a essência delas. E foi-se gerando uma trapalhada.
Veja por favor como em torno da sublime mensagem de Jesus se organizaram mais de uma centena de religiões, doutrinas e seitas. Cada uma considera-se dona da verdade; os seus seguidores dispuseram-se ou dispõem-se a defender essa sua verdade e, por vezes, a tentar impô-la aos outros seres humanos, podendo recorrer ao conflito, à guerra, à morte. O que é que isto tem que ver com a sublime mensagem do mestre? E com outras religiões de inspiração diferente não aconteceu ou acontece, infelizmente, o mesmo?
Considero que seria verdadeiramente útil que as diversas organizações religiosas se focassem na essência das mensagens dos mestres espirituais que dizem seguir, deixando de parte tanta coisa secundária que lhes agregaram. Isso facilitará a via do ecumenismo, que tem sido procurada recentemente por alguns líderes religiosos. E isso facilitará que a humanidade realmente respeite e siga as grandes linhas das mensagens dos grandes mestres espirituais, criando condições para uma maior tolerância, para uma maior solidariedade, para uma maior harmonia.
Disse uma vez, numa entrevista, que “quem medita vai aprendendo a estar de bem consigo”. E quem não tem essa capacidade, o sentido de Deus e da busca interior, e vive num vazio?
Penso que a meditação é um excelente meio para nos encontrarmos connosco próprios, para nos conhecermos melhor e para percebermos como procurar realizar a melhor versão de nós próprios. Esse é um percurso que nos permite estarmos de bem connosco, com os outros e com o Todo.
Admito que todos temos essa capacidade, mas que nem todos estão disponíveis para isso, ou melhor, que ainda nem todos estão disponíveis para isso. Cada um tem o seu livre-arbítrio e faz como quiser; até descobrir o enorme prazer de se conhecer e de se autoaperfeiçoar. O autoaperfeiçoamento não é uma obrigação; é um prazer que se vai descobrindo.
Foi, precisamente, a meditação que o ajudou a recuperar dum esgotamento em jovem. Que conselhos pode dar a quem vive um esgotamento ou está perto dele?
Em minha opinião, é muito importante saber parar para refletir: onde estamos? de onde vimos? para onde vamos? Para onde vamos como linha de tendência e para onde seria mais útil (para nós, para quem nos rodeia e para o Todo) ir? Procurar perceber o nosso propósito de vida; definir grandes objetivos e colocar metas intercalares, focando-nos em fazer o percurso que nos torne mais completos.
Percebido isso, parece-me muito útil reservarmos 10 ou 15 minutos em cada dia, para procurarmos perceber se nas últimas 24 horas atuámos de acordo com os nossos objetivos de vida, ou se andamos distraídos com coisas que não interessam, ou até a cometer erros de que nos envergonhamos. Se foi este caso, procurar perceber porque é que cometemos esses erros, o que os espoletou e como devemos fazer para não os voltarmos a cometer nas próximas 24 horas. E prometermos a nós próprios não os cometermos nesse período; voltando a fazer o ponto da situação 24 horas depois.
É minha convicção que quando fazemos este exercício diariamente, de forma determinada e honesta, pode demorar semanas, meses ou anos, mas chega o momento em que percebemos que vencemos esses erros, que nos vencemos a nós próprios, sentindo-nos mais completos, e vibrando de satisfação, por vezes até às lágrimas.
Recentemente esteve em Gondomar a debater sobre “Ciência e Espiritualidade – a Vida depois da Morte”. Quais são as principais conclusões que tem apresentado?
A investigação conduzida sob o rigor do método científico em algumas universidades, sobretudo norte-americanas e europeias, tem mostrado indícios e evidências da sobrevivência da consciência ou, se preferir, da alma. Isso tem acontecido em áreas diversas, como as experiências de quase morte, a evocação de supostas vidas passadas, a comunicação mediúnica, a regressão e a transcomunicação instrumental.
Não está cientificamente demonstrada a sobrevivência da consciência, mas ela é a melhor explicação para cada uma das áreas estudadas. E o conjunto de indícios e de evidências descritos fazem admitir que, mais cedo ou mais tarde, provavelmente a ciência vai demonstrar a vida para além da morte física.
Nessa relação alusiva, como (se) tem evidenciado o papel da consciência humana? E como estamos, hoje, quanto à consciência e vivência da eternidade/ vida eterna?
Se a consciência realmente sobreviver à morte física, não fará mais sentido perspetivarmos como nosso propósito na Terra a sobrevivência. Esse poderá ser um propósito secundário, para termos condições físicas para concretizarmos apropriadamente os nossos objetivos nesta passagem no planeta. Objetivos esses que – fará todo o sentido – deverão ter que ver com uma trajetória evolutiva de sentido ascendente, individual e coletiva. Provavelmente o nosso propósito essencial é de autoaperfeiçoamento, como contributo para um aperfeiçoamento global ou, se preferir, uma purificação global.
Quanto ao medo em geral, que balanço faz? Há mais razões correntes para ele ser maior do que outrora, fazendo desvanecer a esperança? Como travá-lo?
Sempre existiram situações mais complexas e mais difíceis que possam inspirar medo. E vão continuar a existir, de acordo com as circunstâncias em que vivemos. Faz parte da nossa experiência terrena. A questão não estará propriamente nessas situações, mas na forma como cada um de nós as encara.
O medo é um sentimento de inquietação que surge em situações de perigo real ou aparente. Parece importante evitar essas situações de uma forma realista, positiva, construtiva. Parece muito importante que cada pessoa procure esclarecer-se e posicionar-se em sintonia com os valores universais, para criar condições para superar eventuais situações difíceis que possam surgir, ganhando confiança na natureza e em si próprio.
Por fim, que mensagem motivacional – e esclarecedora da importância da espiritualidade/ ser-se espiritual – pode deixar a quem precisa (todos nós)?
Penso que os grandes mestres espirituais nos deixaram uma clara mensagem de que somos todos partículas do mesmo Todo Universal, iguais em essência. Ou seja, que cada um de nós tem em si um enorme potencial para ser, de facto, igual aos melhores. Para ser igual a Jesus, a Buda, a Lao Tsé ou a Confúcio.
Talvez ajude, nas situações mais complicadas do nosso dia-a-dia, ponderarmos: se Jesus estivesse aqui, como faria? E, custe o que custar, fazermos como o mestre faria, assumindo-nos em plenitude.