As Festas em Honra de Nossa Senhora do Rosário, conhecidas em Gondomar como Festa do Concelho, estão a mudar. O comércio vai ganhar maior destaque, as confrarias gastronómicas vão ter um espaço próprio e uma das tradições que marcou o passado das festas, a venda de louça, vai regressar. A aposta do Município passa por devolver movimento às ruas e aproximar as festas de algumas das características que marcaram o Rosário de outros tempos. Mas, para perceber o que mudou, é preciso recuar várias décadas.
Manuel Gomes, de 90 anos, tem memória das festas há cerca de 75 anos. Na altura, o Rosário ocupava uma área mais pequena e estava concentrado na parte superior do centro de Gondomar. "Nos primeiros anos isto aqui tinha uns caminhos e a festa não se estendia até à rotunda do Burger King. A festa resumia-se à parte de cima", recorda.
Manuel Gomes vivia em Foz do Sousa e Rosa Cunha, hoje com 89 anos, em Jovim. Os dois deslocavam-se diariamente a pé para a escola e, nessa altura, a relação com as festas era diferente. "Nesse período nós vivíamos mais a festa", conta Manuel Gomes.
O Souto era um dos principais pontos de encontro. Ali estavam as barracas dos Bombeiros e da Cruz Branca, praticamente no espaço onde hoje funciona a central dos autocarros. Mais tarde, surgiram outras referências que ainda hoje fazem parte da memória das festas. É o caso das Farturas Couto.
"Mais tarde apareceu o Couto das Farturas que é uma referência nas festas de Gondomar. E em setembro estava sempre aberto", recorda Rosa Cunha. Mas havia também uma tradição que, entretanto, desapareceu das festas: a venda de louça. Na rua que dá acesso à Capela de Santo António existia a chamada rua das louceiras. A venda de louça era um dos grandes atrativos do Rosário e chegavam pessoas de fora a Gondomar para comprar.
"Um dos pontos fortes da festa era a venda de louça, vinha gente de fora. As pessoas esperavam pelo Rosário para comprar louça", lembra. De um lado estava a louça, do outro as doceiras. Havia ainda os tradicionais coretos, com bandas de música, e uma roda gigante onde atualmente existe o auditório. Também a dimensão religiosa era diferente.
Segundo Manuel Gomes, a procissão atraía mais pessoas e havia uma maior participação nas celebrações religiosas. "Há uns anos havia mais religiosidade que agora, atraía mais gente de fora para ver a procissão. Isso já se perdeu. O entusiasmo de ver a procissão já diminuiu muito", considera.
Hoje, o entretenimento ocupa uma posição central nas festas. "O foco agora são os cantores. Antigamente não havia cantores", resume. Apesar das diferenças, Manuel Gomes não olha para a evolução do Rosário apenas pela perda de algumas tradições. Para o nonagenário, Gondomar também cresceu e as festas acompanharam essa evolução.
"Eu prefiro a festa como está agora porque é um privilégio ter o Parque Urbano. O Parque Urbano valorizou muito o centro de Gondomar e essa evolução é muito positiva", acrescenta.
Rosa Cunha partilha da mesma opinião. Para a gondomarense, as festas continuam a ter uma importância particular por conseguirem juntar a família uma vez por ano. "Acho que é bom porque é uma vez por ano. E porque a família se reúne por causa das festas", afirma. Para Rosa, a evolução também é positiva.

Mário Azevedo teve o primeiro contacto com o Rosário ainda criança. Foi o avô quem o levou pela primeira vez, quando tinha cerca de cinco anos. Mais tarde, através de uma associação folclórica, começou a participar nas tasquinhas. É precisamente por ter vivido as festas por dentro que olha com preocupação para algumas das alterações dos últimos anos.
"As festas estão a ficar descaracterizadas muito fruto da evolução e das necessidades do concelho", considera. Uma das principais preocupações está relacionada com a localização das tasquinhas. "Vejo com alguma preocupação a deslocação das tasquinhas, porque a par dos divertimentos e da procissão são dos momentos mais importantes destas festas", defende.
Para Mário Azevedo, o ideal seria concentrar os vários elementos da festa num espaço. "Encontrar uma forma de concentrar a festa sinto que estão dispersas", afirma.
O receio é que a dispersão aumente ainda mais com a deslocação das tasquinhas e, eventualmente, dos divertimentos. "Penso que se tivermos umas festas mais deslocadas vai ser pior para as festas. No meu ponto de vista não faz sentido juntar a Noite Branca às festas do Rosário", afirma.
Mário Azevedo considera que, se a Noite Branca pretende funcionar como abertura das festas, deveria realizar-se mais perto da data do Rosário. "Se querem efetivamente que a Noite Branca abra as festas do Rosário deveriam colocar numa data mais próxima ao Rosário", defende.
Apesar das críticas, reconhece mudanças positivas. O alargamento das tasquinhas a outras associações, para além dos ranchos folclóricos, é uma delas. "Na gíria até chamamos rosário pequenino", explica. Para Mário Azevedo, esta iniciativa permitiu prolongar as festas e trouxe mais pessoas às tasquinhas para jantar.
"Foi uma forma de prolongar as festas e acho que teve sucesso, as pessoas vêm mais porque têm as tasquinhas para jantar", considera.
A tradição, contudo, é uma preocupação. As Farturas Couto continuam a ser uma referência, mas outras tradições perderam força. "Chamam a esta festa, festas das nozes, mas vou ser sincero nunca comprei nozes aqui e acho que as novas gerações muito menos. Acho que como os portugueses são muito nostálgicos têm sempre a tendência de achar que tudo piora, e às vezes até não, melhora", afirma.
No caso do Rosário, considera que houve mudanças positivas, mas entende que as alterações dos últimos anos levantam algumas preocupações. "No caso das festas do concelho acho que já houve coisas piores que melhoraram, mas agora estamos numa fase de descendência tendo em conta estas mudanças que têm sido feitas nos últimos anos", conclui.
É perante este cenário que o Município apresenta as novidades para a edição deste ano. Carla Ferreira, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Gondomar, aponta o comércio como uma das principais alterações.
"A principal alteração vai ser a parte dos comerciantes. Os comerciantes vão estar mais visíveis no centro da festa", explica. O Parque Urbano de Gondomar vai receber comerciantes e a Rua Oliveira Martins também passa a ter uma presença comercial mais forte.
"Queremos utilizar o Parque Urbano de Gondomar como um local de comerciantes e a Rua Oliveira Martins já ter comerciantes, e a festa começar logo aí. Tivemos uma reunião com os comerciantes e eles ficaram contentes com esta alteração", revela.
O objetivo passa também por recuperar alguns dos locais que os comerciantes ocupavam no passado. "As pessoas querem voltar à festa e voltar a ter os lugares que tinham antes. Tentamos colocá-los em sítios similares aos que estavam antigamente", explica.
A aposta no comércio surge numa altura em que o Município reconhece uma diminuição do número de visitantes. Carla Ferreira recorda um tempo em que chegavam a Gondomar várias camionetas para as festas. "O Rosário deixou de ter tantas pessoas que tinha. Eu lembro-me de há anos haver camionetas espalhadas por Gondomar, porque as pessoas faziam questão de vir", recorda.
Os hábitos mudaram, mas a vereadora admite que o número de visitantes também diminuiu. A intenção passa agora por voltar a colocar o Rosário entre as grandes festas da região. "Mudar é também pôr o Rosário numa das principais festas da área metropolitana do Porto", afirma.
Para isso, a Câmara aposta numa maior diversidade de comércio e no regresso de algumas tradições. "Há anos que não tínhamos uma louceira e vamos voltar a ter nas festas do concelho", anuncia.
A gastronomia gondomarense também vai ganhar maior destaque. A Confraria dos Rojões e das Papas de Sarrabulho à moda de Baguim do Monte e a Confraria do Caldo de Nabos vão ter um stand próprio. "Quero que tenham um stand só para eles. Que tenham um papel de destaque e mostrem à população o que se faz em Gondomar", explica a vereadora.
A animação continua a ser outra das apostas para atrair público. Com mais pessoas nas ruas, a segurança mantém-se como uma das prioridades do Município. "O fator segurança continua a ser importante, as pessoas têm de vir a Gondomar estar felizes e em segurança", garante Carla Ferreira.
Outra das novidades é a ausência da ExpoGondomar integrada nas Festas. A vereadora explica que a decisão resulta da intenção de dar maior espaço aos comerciantes presentes nas festas. "As festas do concelho não é a melhor altura para termos a ExpoGondomar, já existe uma série de comerciantes na rua e é importante que as pessoas visitem esses comerciantes e muitos aqui de Gondomar", afirma.
O cartaz deste ano tem como cabeças de cartaz, dia 2 de outubro, Matias Damásio, dia 3 Rouxinol Faduncho, dia 4 José Malhoa, dia 5 a Banda Musical de Gondomar com Diana Basto, dia 9 de outubro, Nuno Ribeiro e no último dia, 10 de outubro, Karetus.
As Festas do Rosário chegam assim a mais uma edição entre a memória de um passado marcado pelas louceiras, pelos coretos, pelas bandas e pela forte componente religiosa, e uma realidade atual onde os concertos, os divertimentos e uma programação mais contemporânea ganharam espaço. O desafio passa agora por juntar estas duas realidades. O Município quer mais comerciantes nas ruas, recuperar a venda de louça, dar destaque à gastronomia local e voltar a aproximar as festas de algumas das tradições que marcaram o passado.
Para quem viveu o Rosário durante décadas, a evolução faz parte do crescimento de Gondomar. Para quem participou nas festas e acompanhou as mudanças, há receios quanto à sua descaracterização.
"Espero que as pessoas venham ao Rosário, que andem na rua e usufruam. Que seja um arraial de verdade", remata a vereadora da cultura.
MerenD’Ouro uniu tradições
O 10º Merend’Ouro decorreu pela primeira vez no Parque Urbano de Gondomar, no fim de semana de 12 e 13 de setembro. Esta iniciativa dedicou dois dias às tradições, etnografia, ao folclore e aos sabores de Gondomar.
A gastronomia voltou a marcar presença com principal destaque para o tradicional Caldo de Nabos, um dos sabores mais característicos do concelho gondomarense, acompanhado de outros petiscos.
A iniciativa teve como propósito recuperar os trajes típicos associados à vida rural e aos antigos ofícios usados nos dias de festa, nas celebrações religiosas e nas romarias, bem como expressões da cultura popular, cantares religiosos, brincadeiras e jogos de outros tempos. Um verdadeiro regressar à época antiga em Gondomar nas festas do concelho.
Foi um momento de muita alegria, tradição e que uniu todos os gondomarenses em torno das tradições que pretendem que nunca sejam esquecidas.
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