Natural de Fânzeres, Fernando Sá acaba de juntar mais um capítulo marcante à sua carreira ao conquistar o campeonato nacional de basquetebol como treinador do FC Porto, depois de já o ter feito enquanto jogador. Nesta entrevista, o técnico fala das raízes em Gondomar, da época que culminou na conquista do título, sem esconder a ligação profunda ao clube do coração e à terra onde cresceu.
Quem é o Fernando Sá?
Sou natural de Gondomar, mais concretamente de Fânzeres, onde nasci e cresci. Venho de uma família de dez irmãos, oito rapazes e duas raparigas, todos muito ligados ao desporto e ao Fânzeres. O meu pai foi o fundador do Grupo Desportivo e Coral de Fânzeres e é para nós um enorme orgulho existir uma rua com o seu nome naquela freguesia. Os quatro irmãos mais novos começaram a jogar basquetebol e foi isso que me levou para a modalidade. Sendo o mais novo, acabei por seguir-lhes os passos.
Em termos académicos, frequentei até ao 6.º ano a Escola Preparatória de Gondomar e depois continuei os estudos no Porto. Ainda assim, sempre mantive uma ligação muito forte, pessoal e profissional, a Gondomar.
Antes de me dedicar exclusivamente à carreira de treinador, fui professor no Colégio Paulo VI, em Gondomar. É uma ligação que mantenho até hoje e que representa um refúgio nos momentos de maior pressão. Espero continuar ligado ao colégio durante muitos anos. Naturalmente, o profissionalismo no FC Porto reduziu bastante o tempo que consigo dedicar ao ensino, mas faço questão de manter esse vínculo enquanto a direção assim o entender.
Depois de ter sido campeão como jogador e agora como treinador, qual destas conquistas o emocionou mais?
Quando terminei a carreira de jogador, em 1999, sempre tive o sonho de regressar ao FC Porto como treinador e conquistar os mesmos títulos. Viver um campeonato enquanto treinador é completamente diferente. Como jogador, celebramos muito o momento e acabamos por estar mais focados em nós próprios. Como treinador, a maior felicidade é ver todos à nossa volta felizes: jogadores, equipa técnica, dirigentes, adeptos e famílias. Os momentos de festa são muito curtos. Rapidamente começamos a pensar na época seguinte. É uma profissão feita de muitas angústias, muito trabalho e algumas alegrias, mas a paixão pelo que fazemos leva-nos a olhar sempre para o próximo desafio.
Há um sentimento especial quando se conquista um título no clube do coração?
Sem dúvida. Tanto na vitória como na derrota, sinto que vivo tudo de forma muito intensa. Quando ganhamos, sei que estou a contribuir para a felicidade dos adeptos. Quando perdemos, sinto esse peso de forma ainda maior. Além da responsabilidade profissional, existe também a ligação emocional ao clube. Como portista, as derrotas custam-me ainda mais. Felizmente, a experiência ajuda-nos a encontrar algum equilíbrio, mas nunca deixa de ser difícil separar o treinador do adepto.
Em que momento acreditou que o título era possível?
Uma época é sempre feita de altos e baixos e a nossa não foi exceção. Começámos muito condicionados por duas lesões importantes, que só ficaram resolvidas em dezembro. Ao mesmo tempo, tínhamos três jogadores novos que precisavam de tempo para se integrar. Isso refletia-se nos resultados e, sobretudo, na consistência defensiva da equipa. Houve, no entanto, um momento decisivo. Tínhamos um jogador norte-americano que, apesar da sua qualidade, acabava por gerar alguma instabilidade dentro do grupo, não por falta de profissionalismo, mas pela sua personalidade. Depois da eliminatória dos quartos de final frente ao Imortal, e já com outro jogador recuperado para essa posição, tomei a decisão de o dispensar. Não atribuo o sucesso apenas a essa decisão, a responsabilidade é sempre do treinador, mas senti que, a partir daí, a equipa ganhou uma união muito evidente. Houve um crescimento coletivo que foi além da componente técnica. Ao mesmo tempo, o regresso dos jogadores lesionados trouxe estabilidade e permitiu reduzir significativamente os pontos sofridos por jogo. Tudo isso contribuiu para acreditarmos cada vez mais que o título era possível.
O "nós" tem de ser sempre mais forte do que o "eu"?
Sim, sem qualquer dúvida. Os treinadores vivem permanentemente com dúvidas e, muitas vezes, acreditamos que conseguimos resolver tudo sozinhos. Mas isso não é verdade. As equipas vencedoras constroem-se sempre através do coletivo. Por muito talento individual que exista, o grupo tem de estar sempre acima das individualidades.
Depois deste título, quais são os objetivos? Pretende continuar no FC Porto?
Sim. Enquanto os resultados justificarem a minha presença, ficarei no FC Porto com todo o gosto. É um clube que existe para conquistar títulos. Se não os ganharmos, alguém terá de assumir essa responsabilidade. Enquanto sentir que sou útil ao clube, quero continuar. Quando esse ciclo terminar, logo avaliarei o futuro.
Nunca pensou em treinar Benfica ou Sporting?
Não. Neste momento da minha carreira, quando sair do FC Porto, gostava de abraçar um projeto fora de Portugal.
Existe algum campeonato que o atraia em particular?
Gostava de trabalhar numa liga competitiva. É isso que mais me motiva.
Sendo gondomarense, sente que leva sempre um pouco de Gondomar consigo em cada conquista?
Sem dúvida. Muito daquilo que sou resulta da educação que recebi dos meus pais e das vivências que tive em Gondomar. A nossa terra sempre foi um exemplo de trabalho, sacrifício e resiliência. Aprendi desde cedo que nada nos é oferecido. Apesar de os meus pais terem alguma estabilidade financeira, ensinaram-nos que querer não basta; é preciso trabalhar para alcançar os objetivos. Essa forma de estar acompanha-me todos os dias, tanto na vida como no desporto.
Que conselho deixa aos jovens que sonham chegar à alta competição?
Que trabalhem tanto para esse sonho como trabalham para qualquer outra paixão da vida. A alta competição exige muitas escolhas. Não basta treinar três vezes por semana durante hora e meia. Isso pode ser suficiente para praticar desporto, mas não para chegar ao mais alto nível. Também não significa abandonar os estudos. Significa perceber que, para alcançar grandes objetivos, é preciso dedicação, disciplina e muito treino. Todos os desportos vivem da repetição e da capacidade de melhorar diariamente.
Há alguém a quem queira deixar um agradecimento especial?
Gostava de agradecer a algumas pessoas que foram fundamentais ao longo da época. Em primeiro lugar, aos meus adjuntos, João Pedro Gonçalves e João Henriques, pelo trabalho diário e pela dedicação.Quero também destacar o Artur Dias, o nosso técnico de equipamentos. Foi uma presença constante durante toda a época, sempre atento e disponível em qualquer momento. Talvez ele próprio não tenha noção, mas foi uma pessoa muito importante para mim ao longo desta caminhada.