Sociedade

Exames nacionais: uma reforma digital marcada por falhas

A primeira fase dos exames nacionais ficou marcada por uma mudança profunda no processo de correção das provas, mas também por atrasos, falhas e dificuldades que condicionaram a divulgação das classificações. A implementação do novo modelo digital, que substituiu a tradicional correção integral das provas em papel, revelou problemas sobretudo na digitalização, no transporte dos exames e no funcionamento da plataforma utilizada pelos classificadores.

Apesar das dificuldades, professores e responsáveis escolares ouvidos pelo nosso jornal consideram que o princípio do processo é positivo e representa uma evolução necessária na classificação dos exames. O principal problema, defendem, esteve na forma como a mudança foi implementada e na dimensão da operação realizada.

Para Elisabete Neves, professora de Matemática e classificadora de exames, é importante distinguir o processo em si da forma como foi colocado em prática. “Há duas coisas a distinguir: o processo da classificação de exames e a implementação desse mesmo processo. Queria focar que este processo é melhor e é o futuro. Tem de ser mesmo o futuro, não podemos voltar atrás, só tem vantagens”, afirma.

A nova metodologia implica que as provas sejam digitalizadas depois da realização dos exames. As respostas de escolha múltipla são corrigidas informaticamente, enquanto as questões de resposta aberta são distribuídas pelos professores através de uma plataforma online. Em vez de corrigir uma prova completa, cada classificador concentra-se apenas em determinados itens. “Até agora as provas eram corrigidas na íntegra pelos classificadores em papel. Agora nas provas as respostas de escolha múltipla são corrigidas informaticamente, as questões de resposta aberta chegam aos professores online com uma plataforma para tirar dúvidas e procedermos à respetiva classificação”, explica a docente. – bold 

A professora considera, ainda, que este modelo pode trazer maior especialização e uniformidade às classificações. “Nós começamos a classificar apenas dois itens da prova, especializamo-nos nos critérios de avaliação dessas questões. Chega a um ponto que já temos todos os critérios bem definidos, especializamo-nos nesses itens, há mais credibilidade na correção. Acho que é mais fiável e justo”. A possibilidade de realizar a correção à distância é outra das vantagens apontadas. 

O problema surgiu, sobretudo, na transição para este novo modelo. A quantidade de exames envolvidos na primeira fase foi significativamente superior à experiência-piloto realizada anteriormente, que se focou essencialmente na correção dos exames de filosofia, de 11º ano, o que acabou por expor as fragilidades no sistema.

Ana Rangel, diretora da Escola Secundária de São Pedro da Cova, considera que uma das principais falhas esteve precisamente na dimensão da amostra utilizada para testar o novo processo. “Falhou a amostra inicial que fizeram o ano passado, que era reduzida face à quantidade de exames que houve este ano. Quando fazemos esse tipo de extrapolação, os riscos são demasiado grandes”.

A responsável chama ainda a atenção para problemas relacionados com o transporte e a digitalização das provas. “Houve algumas falhas na comunicação para onde deveriam ser transportadas as provas, nomeadamente com as forças de segurança. Houve erros em que as provas foram levadas de um sítio para outro. As principais falhas foram o processo do transporte e de digitalização dos mesmos”.

A diferença de escala é, para Ana Rangel, determinante. “No ano passado fizeram uma disciplina, este ano juntavam mais uma ou outra para terem uma amostra aproximada do que seria a realidade e irem afinando”. 

As dificuldades acabaram por provocar atrasos na chegada das provas aos classificadores. “Com essas falhas, até chegarem os exames aos classificadores demorou muito tempo”, acrescenta.

A experiência de Ana Peixoto, professora de Português e classificadora de exames, revela outro dos problemas sentidos: a instabilidade da plataforma digital.

“A plataforma foi o grande problema, foi muito instável. Muitas das vezes queríamos aceder à plataforma para aceder às provas e muitas vezes estava inativa, por horas seguidas”, relata. A professora descreve um processo cansativo, marcado pela incerteza quanto ao número de itens e de provas que teria de corrigir. “Nunca sabíamos quantas provas iríamos ter. Recebi provas em cinco remessas, começaram por 38 de dois itens e depois chegou aos 202 itens, que corrigimos na primeira fase”, conta.

O calendário apertado agravou as dificuldades. “A última remessa que recebemos foi no domingo à tarde, quando terminava a correção na terça-feira”, acrescenta. Ainda assim, Ana Peixoto reconhece que, se o sistema tivesse funcionado na sua plenitude, o novo método pode facilitar a correção. “Se a plataforma funcionasse bem, se não houvesse o problema das folhas em falta, era mais fácil vermos a prova, porque estamos focados nos dois itens, acaba por ser mais rápido e mais agradável”, considera.

Os problemas registados durante a primeira fase tiveram também reflexos no processo de reapreciação das provas. As professoras consideram que o mediatismo em torno das falhas levou alguns alunos a pedir a reapreciação das classificações mesmo sem existirem indícios concretos de erros na correção.

A professora de português registou este ano 17 reapreciações, quando anteriormente tinha realizado seis ou sete em papel. “O mediatismo levou muitos alunos a pedir reapreciação, muitas vezes sem ver que ia ser concluído de forma positiva. Não era normal haver uma prova com 13,9 pedir reapreciação e achar que iria chegar ao 15, por exemplo”, explica.

A professora considera que a perceção pública dos problemas acabou por gerar desconfiança relativamente ao rigor das classificações. “O mediatismo é que deu aso a que os alunos pensassem que as provas não foram corrigidas com rigor”.

Também Elisabete Neves considera que a polémica em torno do processo não significa que os resultados tenham perdido rigor. “Acho que é mediatismo a mais. Não correu bem, é verdade, mas não está em causa os resultados e o rigor das classificações, o que está em causa são os timings”. 

As dificuldades no calendário dos exames tiveram consequências para as escolas, que se viram obrigadas a manter equipas disponíveis até à divulgação das classificações.

Ana Rangel relata que, na Escola Secundária de São Pedro da Cova, não houve notas suspensas na primeira fase. “Nós não tivemos nenhuma nota suspensa. Tivemos só uma aluna que, quando pediu a prova, percebemos que não tinha as folhas todas”. A diretora considera, contudo, que o prolongamento do calendário poderá trazer dificuldades no início do próximo ano letivo. “Em setembro ou há muito poucas provas ou não haverá professores para corrigir as provas, porque muitos deles estão de férias devido a este prolongamento dos exames, e também porque muitos dos corretores são professores do terceiro ciclo e os alunos têm de ter aulas”.

Julieta Rosmaninho, diretora do Agrupamento de Escolas à Beira Douro, partilha a preocupação com o impacto do calendário. Apesar de não ter classificado exames este ano, considera que o novo modelo tem vantagens para os professores. “Este processo é uma boa forma de ajudar os classificadores. Porque, além de estar focado em dois itens, não percebe o tipo de aluno que tem. É uma correção mais objetiva, para o bem e para o mal”.

A responsável considera, no entanto, que faltou uma preparação mais consistente antes da implementação em larga escala. “Acho que faltou testar, porque a prova de Filosofia já tinha corrido mal e estas classificações da primeira fase correu ainda pior”.

O impacto chegou mesmo ao funcionamento das escolas no dia da divulgação das classificações. “Saí da escola às 23h00. Chegámos a colar as pautas nos vidros para que os funcionários não tivessem de estar mais horas na escola, porque tudo isto traz outros problemas”, relata. 

A manutenção da segunda fase dos exames e a criação de uma época extraordinária são também alvo de críticas por parte de Julieta Rosmaninho, que questiona o impacto destas decisões no início do próximo ano letivo. “Para que fazer uma segunda fase e depois uma fase extraordinária? Para isso, a segunda fase passava para setembro e as coisas correriam bem melhor, porque limavam o que havia a limar. Iniciarmos um ano letivo com exames, e a maior parte dos professores de secundário são professores de terceiro ciclo, como vão resolver isto? Os alunos vão ficar sem professores?”. 

Apesar das críticas à implementação, a opinião sobre o princípio da reforma é, entre os responsáveis escolares ouvidos, maioritariamente positiva. “Se retirarmos o que correu mal, a opinião unânime é que o processo era bom”, resume Ana Rangel.

Também o vereador da Educação da Câmara Municipal de Gondomar, Nuno Fonseca, considera que a transição para um sistema digital é necessária, mas aponta responsabilidades na forma como todo o processo foi conduzido.

“A única crítica que faço é uma péssima gestão política do processo. Entendemos todos a necessidade das reformas digitais, são fundamentais. Não faz sentido que no século XXI e na era que estamos a fazer processos da mesma forma que fazíamos há uma década”, afirma.

Para o vereador, a comunicação sobre estas falhas nas classificações acabou por agravar a perceção pública do problema. “Seria mais fácil se houvesse logo a assunção do erro, e dizer às pessoas exatamente isso: que estamos com um problema e que vamos corrigir, garantindo a mesma oportunidade para todos”, considera e acrescenta que “as escolas fizeram um grande esforço, mesmo estando em época de férias. Mal recebessem os resultados, imprimissem, publicassem, independentemente da hora que fosse. “Obviamente que a Câmara Municipal apoiou de forma “indireta” através dos funcionários e assistentes técnicos. Não podemos deixar de valorizar o trabalho realizado em conjunto com os professores e membros da direção para minimizar a ansiedade dos alunos envolvidos”.

Para Elisabete Neves, a experiência deste ano não deve significar um retrocesso. “Não previa tantos problemas. Esta metodologia já existe em alguns países, não achei que existissem tantos problemas. Quando há inovação nos primeiros tempos é normal que aconteçam”.

Também Ana Rangel acredita que a experiência deste ano poderá servir para corrigir os procedimentos. “Tenho em crer que para o ano as coisas sejam melhores se se mantiverem estas condições”, refere.

O balanço da primeira experiência em grande escala deixa, assim, duas conclusões distintas: a reforma digital é considerada necessária e apresenta vantagens na especialização dos classificadores, na objetividade e na segurança das provas. A implementação, porém, ficou marcada por falhas que provocaram atrasos e incerteza entre alunos, professores e escolas.

A questão que fica para o próximo ano é se as dificuldades identificadas nesta primeira fase serão suficientes para permitir uma segunda implementação mais preparada, estável e capaz de garantir que a tecnologia cumpra o objetivo para o qual foi introduzida: tornar o processo de classificação mais eficiente, seguro e justo.

 

 Maria Gonçalves, aluna que pretende seguir Gestão e entrar na Faculdade de Economia, considera que: “não senti quase diferença nenhuma. Claro que fiquei nervosa, mas acho que se fosse noutra altura qualquer iria ficar nervosa na mesma, porque queria saber as notas e perceber se tinha capacidade de entrar no curso que queria. Foi mais alarmismo do que propriamente a realidade. Eu vi os exames, não pedi reapreciação de nenhum. Acho que as pessoas problematizaram as coisas”.

 

Diana Ribeiro, pretende seguir Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, também não teve nenhum exame suspenso, embora admita ter sentido alguma preocupação perante as notícias e os relatos que foram surgindo. “Não tive nenhum exame suspenso, mas claro que estava nervosa. Víamos tantos casos nas redes sociais de pessoas que tinham corrido mal que ficámos com receio do que nos ia acontecer a nós”.

 

 

 Ana Peixoto - professora de Português e classificadora de exames 

 

 

 

 Ana Rangel - diretora da Escola Secundária de São Pedro da Cova

 

 


 

 Elisabete Neves - professora de matemática e classificadora de exames

 

 

 

 Julieta Rosmaninho - diretora do Agrupamento de Escolas à Beira Douro

 

 

 

 

 

 

 

 

 Vereador da Educação da Câmara Municipal de Gondomar 

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