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“Portugal não é um país que apoie e invista a 100% num projeto para o festival da Eurovisão”

Grande Entrevista com:

CLÁUDIA PASCOAL


Que memórias gratas e felizes guardas da tua infância nesta tua terra, Gondomar, dado que agora não vives cá?

Infelizmente, tive de mudar para Lisboa por causa da minha carreira. Eu vivia em S. Pedro da Cova, onde vivem os meus pais. Custou-me largar. Sobretudo o cheiro matinal a eucalipto, pois ao domingo de manhã fazia umas caminhadas na serra que ali temos. Isso mudou, já não as faço, o que se torna para mim um bocado estranho. E falta-me a pronúncia da minha vida: de ouvir as pessoas da minha terra, com o seu jeito próprio.

E o que destacas de mais-valia no concelho de Gondomar? 

Primeiro de tudo, já fui visitar o novo jardim central da cidade – que ainda não conhecia – e está muito bonito. Também revisitei o museu Mineiro, que sofreu algumas obras e está muito bem. Portanto, acho que felizmente Gondomar está a avançar de uma forma muita ativa a nível cultural. Importa continuar a criar esta proximidade, a preservar a nossa herança e atualizar, acima de tudo, aquilo que está intocável. Só de vez em quando regresso a casa dos meus pais – quando tenho as minhas folgas – e sempre que regresso há uma mudança, há uma transformação para melhor. Estamos a evoluir.

Brevemente estarás de novo cá, com o teu concerto no Porto, dia 2 de junho, de apresentação do teu novo álbum. O que esperas dessa atuação?

A minha maior expectativa é que o espaço do «Hard Club» esgote. Isso será muito importante para mim! E depois atuar no Norte é sempre especial. Mais especial será porque vou partilhar palco com a minha mãe, num momento que será certamente muito terno. Espero poder ver muitas caras minhas conhecidas. Logo, essa atuação tem tudo para ser espetacular.

Qual o motivo, além do seguimento do 1.º álbum, deste se intitular “!!”? Que significado tem?

Como dizes e bem, vem na continuidade do meu álbum de estreia, com um ponto de exclamação. Quis fazer esta brincadeira de a seguir ao 1 vir o 2. É, de facto, a continuação da minha exploração, da minha evolução na procura do que quero fazer em relação à música e, principalmente, a minha apresentação enquanto pessoa. É como o meu BI, com as minhas referências tanto no Douro como no Minho, onde também tenho família. Pretendo trazer todos esses elementos e que me fazem ser a pessoa que sou hoje.

Donde te vem essa inspiração, para lá das heranças. O que te fez adotar este caminho entrando na pop atual que envergas?

Penso que não foi nada feito de forma consciente. Sinto que está intrínseco em mim, tanto as melodias que fiz de lavar a roupa no tanque, como os pastores a chamar as vacas, etc.. Eu quis trazer o máximo de minha casa para perpetuar as memórias da minha infância. Foi com esse objetivo que criei essa ligação entre o tradicional e o atual. Mesmo os meus concertos querem espelhar isso mesmo: são uma recriação da casa da minha avó, com cães de louça, os chuveiros com cortinas e os patinhos, temos a tasca e o arraial montado. Este álbum “!!” pretende dar-me a conhecer, novamente, não só como pessoa mas também como artista.

Nessa roupagem que trazes e usas, tens também a tua própria imagem de marca, com o rosa – ora no cabelo, ora nos adereços. Isso foi pensado ou um mero acaso?

Esse estilo que acabei por integrar em mim é em parte imagem de poder fazer um pouco o que me apetece. Já me disseram várias vezes, quem me conhece, que não imaginavam que eu tomasse este caminho. Pois, antigamente, eu não era pessoa tão impactante visualmente! Tomei essa decisão quando me senti suficientemente liberta, porque acho que por dentro sempre fui essa pessoa. Foi uma questão de coragem. E mau era, com quase 30 anos de idade, não assumir essa coragem e me sentir confortável a compor o meu álbum.

Nessa procura que falavas, do teu caminho, no fundo essa inquietação já transparecia desde 2010 nas tuas participações seguidas em concursos musicais televisivos. Pretendes continuar essa prestação?

Esses programas de televisão que referes, e em que estive, nada tem a ver com música, mas com a apresentação duma personagem. Eu fui sempre com esse objetivo, de me dar a conhecer e a estabelecer uma aproximação com o público. Foi uma questão de comunicação, para ter espaço na minha apresentação. Depois disso surgiu-me a oportunidade de levar a música realmente a sério. Daí que não me vejo regressar a esses concursos: não faz sentido voltar a uma plataforma já com o meu intuito profissional. Agora estou inteiramente focada na música. Se regressasse, seria de outra forma.

Olhando ao facto de teres sido apresentadora do programa «Curto-Circuito» (SIC Radical), e jogando com as palavras, o que te faz criar curtos-circuitos, em ti e nesta vida?

A vida é feita de curtos-circuitos. Eu quero saber imenso o que a vida tem para mim e, como estou tão envolvida no meu processo criativo e na minha base profissional, obviamente que vou tendo muitos curtos-circuitos. Mas sempre numa rede positiva e de construir algo. Por isso, vou-me dando bem com eles.

Há cinco anos participaste no Festival «Eurovisão da Canção», e há dias ainda tivemos mais uma edição, a deste ano. Que balanço fazes, a esta distância, e do que acontece realmente lá dentro?

Tal como disse para os concursos de música na TV, também o digo para os festivais da «Eurovisão da Canção»: infelizmente, não têm que ver muito com música propriamente dita! Há muitas outras variáveis. O «Eurovisão» é muito divertido de fazer, daí eu ter participado, e ter voltado a tentar este ano, mas desta vez com um projeto meu. Em 2018 eu estava a representar Portugal com um projeto da Isaura, não da minha autoria. Eu posso assinar por baixo aquilo que a Mimicat já verbalizou: é, de facto, muito difícil concretizar ideias sem apoio financeiro. Portugal não é um país que apoie e invista a 100% num projeto para o festival da Eurovisão da Canção, pelo que se torna muito complicado. A par dessas limitações financeiras estão inerentes limitações criativas. Devia haver mais oportunidade, mais apoio, para Portugal conseguir concretizar melhor a sua participação. 

Mas nós conseguimos, além da qualidade em si e não vai há muito tempo, vencer pela primeira vez o festival com o Salvador Sobral. E não era um tema propriamente “festivaleiro”, como se ouve em alguns países… O que mudou?

O Salvador Sobral, realmente, conseguiu aquilo que queria. A ideia do artista foi cumprida a 100%! Isso nunca aconteceu noutras atuações portuguesas. O que o Salvador fez em palco foi “pouco” em termos de espetacularidade, porque essa ideia minimalista que ele teve foi muito bonita! Quando alguém quer um pouco mais – fazer os “fireworks”, como o Salvador refuta – nós não temos como conseguir isso, infelizmente… A música que a Mimicat tinha – algo ritmado, bonito e até excêntrico, diria – podia ter sido cumprida, e eu sei porque falámos ambas sobre isso, mas não teve os apoios necessários para conseguir impor as suas ideias. Assim, é lamentável…

Com base no nome do teu 1.º single, «Ter ou não ter», até que ponto a opção constante pelo ter, em desprimor pelo ser, pode condenar os jovens e a sociedade?

Na verdade, a razão de eu ter chamado a essa música «Ter ou não ter» tinha a ver com uma ligação amorosa, com o que eu estava a passar na altura em que a compus. Mas nesta leitura adequada da pergunta, e eu posso falar por mim – embora já não seja bem jovem, ao estar quase nos 30 (risos), mas acho que ainda estou no topo da juventude –, acho que é cada mais difícil. Vejo esta questão como outra música minha: «É para a frente, é para traz». Ora, muitas vezes, damos um passo para a frente e cinco para traz, sendo muito complicado vingarmo-nos na nossa carreira profissional. Sinto que vivemos na geração das seis profissões: temos de ter vários trabalhos para poder pagar renda e outras despesas. Vivemos nessa existência de ter que fazer muita coisa ao mesmo tempo, não como motivação mas sim por obrigação.

Face ao que expões, a essa contraproducência, para onde vamos ao fazermos contrariados as coisas e não motivados?

Acho que é preciso ter uma atenção especial para a saúde mental, o que não se tem tido. É, realmente, algo um bocado irónico. Sabemos que devemos tê-la – a saúde mental – mas a vida não nos dá meios para a termos, para sermos saudáveis. É preciso, cada vez mais, um esforço maior em termos cabeça e uma relação equilibrada entre o nosso corpo e a nossa mente face ao que a vida nos exige. 

Com os perigos que já se espreitam da Inteligência Artificial, fruto do «chatGPT», sentes que nos abeiramos do fim da verdadeira humanização?

Acho que temos de esperar para ver, até para perceber o que é bom e o que é mau para nós. Ainda não tenho opinião total e formada sobre isso, porque é algo precoce, que ainda está a nascer. 

Conforme já referiste estás quase a completar 30 anos. Quais são as tuas principais aspirações e preocupações ao atingires três décadas de vida?

Quero continuar a trabalhar imenso. Sinto que neste último ano fui evoluindo muito, enquanto profissional e enquanto ser humano. Estou numa fase muito positiva, de saber como isto se faz mais a sério e de tornar a realização profissional mais individual, estando envolvida em todo o processo. E claro que com pessoas ao meu lado que eu admiro e que gosto muito. Porque o trabalho de artista musical acaba por ser um pouco egocêntrico, centrado na história de cada um. Desta forma, nesta personificação do meu trabalho, acabei por descobrir coisas sobre mim que eu própria não sabia. Portanto, acredito que para ter sucesso é preciso mesmo muito trabalho e criatividade.

Há algum repto que queiras deixar, pela pertinência do mesmo?

Sim. Importa reforçar que é importante apoiar a Cultura Portuguesa, que vive tempos muito difíceis, como já fomos falando nesta entrevista. Desafio a que todos possam ir a concertos, que não só meus, pois os artistas vivem desse carinho do público.

Por fim, o que esperas para o mundo e para o nosso país, com as conjeturas que vivemos? Como vês a melhoria desejada?

Acho que a solução está dentro de nós. Eu acredito que toda a gente é boa pessoa. Apesar de, por vezes, poder ser um pouco desviada por circunstâncias de vida, ou o que for. Mas, em todo o caso, todos somos excelentes seres humanos se nos concentrarmos no melhor que temos dentro de nós e espalhar esse bem uns com os outros. É essa visão que tento ter e com a qual me rodeio. Se toda a gente for assim, está tudo certo.

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