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"O que mais me encantou em Rio Tinto é o que mais me encanta em quase todas as cidades do Norte: são as pessoas".

Além de seres um ator e apresentador de TV, consideras-te um comediante e humorista? Por quê?
Não. Como já disse em entrevistas minhas eu não me considero nem humorista nem comediante. A minha profissão é ser um ator, no sentido mais lato da palavra. Podemos dizer que sou um artista. E um artista pode comunicar de várias maneiras: pintando um quadro, escrevendo um poema, escrevendo uma canção, fazendo uma série, interpretando teatro. Portanto, não sou humorista.

Mas o humor está sempre contigo. É uma peça chave da tua ação...

Sim, acaba por estar. Eu trabalho muito com o humor e gosto muito de o fazer. Mas, na minha essência, eu não sou o humorista puro. Ou seja, não sou um humorista da piada mais rápida. Trabalho sobre o quotidiano, faço comédia de improvisação e com um filtro do humor. A diferença está aí.

Enfrentas sempre a vida com comédia e humor? Conseguirias viver de outra forma?

Não enfrento a vida sempre assim. Tecnicamente, conseguiria viver de outra forma. Não tenho humor todos os dias. Também me sinto, por vezes, amargurado e triste, como todos nós
estamos. Mas na minha visão faço por ter um olho humorístico. Seria um César Mourão diferente se não o tivesse.

E é fácil tirar-te o bom humor e a boa disposição? É qualquer coisa que te faz perdê-los?
Não, isso não. Nem a morte, devo dizer! Não me tira o humor. O humor é tornar mais leve a seriedade, mas não se deixa de ser sério.

Além da preparação e trabalho que qualquer profissão necessita, deixas-te levar muito pelo improviso? Confias nele a 100%?

Tenho programas que é completamente improviso, como «Terra Nossa» e «Commedia a la Carte», e outros não, como «Esperança», em que tenho um guião. Nesses em que improviso, diria que são 200% de improviso: não tenho nada pensado, não há nada mais puro.
Antigamente era um problema quando alguém dizia: “ah, mas aí tem qualquer coisa pensada, não tem?”. Para mim era uma tristeza. E hoje em dia é um elogio, se acharem que um espetáculo meu não é 100% de improviso, em que o é realmente.´

Satisfaz-te o resultado do mesmo? E quanto à reação das pessoas?
Sim, satisfaz. E o público não é burro. As pessoas percebem o que vêem. Depois, acham graça ou não. Já percebem quando é improviso ou não. E já não preciso de justificar, como antigamente fazia. As pessoas sentem.

E costumas arrepender-te de algo que disseste, em que já não podes voltar atrás, tal
como num direto?

Já me aconteceu. Mas a experiência é isso que me dá: eu já não digo a primeira coisa que me vem à cabeça, como antigamente dizia. A magia do improviso está em escolher as várias coisas que me vêm à cabeça! Agora, ‘supersonicamente’ falando: a resposta tem de ser muito rápida. Quando eu digo uma piada em palco, tipo em «Commedia a la Carte», é já a segunda coisa que me veio à cabeça. Ou a terceira. A primeira eu deitei-a fora: ou porque era fácil demais ou porque não era tão boa ou porque era uma piada despropositada. Portanto, a experiência deu- me atualmente esse filtro.

Sentes-te uma pessoa mais terna do que antes, por viveres «a ternura dos quarentas»? O que faz perder, e quando, esse género de ternura em ti?

(risos) Não sei se sou mais terno, sei que sou mais ponderado hoje em dia, do que era quando
tinha 20 anos. Por isso eu chamaria à canção “a ponderação dos quarenta”, em vez de «a ternura dos quarenta», que é uma grande canção do Paco Bandeira. Além de mais ponderado, espero ser também mais ternurento. Pelo menos enquanto pai sou-o sempre (risos).

Como artista multifacetado, também tocas instrumentos musicais e fazes ilusionismo e malabarismo. É nessa faceta que atuarás no Porto, no fim deste mês. Quando montas este tipo de espetáculos quais são os teus objetivos? Neles, o que não pode falhar?

Eu tenho uma única máxima e algo que nunca pode falhar: o rigor! Ou seja, a pessoa que faz o esforço – não é só de pagar o bilhete – de sair de casa, de apanhar trânsito, de encontrar um lugar para estacionar e de ainda jantar fora (se for o caso) é obrigação minha dar-lhe rigor. Depois, se a pessoa gosta ou não, se vai para casa contente ou não, isso já não consigo dominar, infelizmente. Sei, sim, que a pessoa olhou para aquele palco e viu um cenário muito bem pensado, a luz bem projetada, um som muito bem trabalhado, uma banda com elementos muito bem ensaiados e muito rigor em tudo o que colocamos no palco. A qualidade que daí vem se é boa ou não é com cada um que assiste e com os sentimentos que o acompanham. Mas há ali cuidado e trabalho em cima do palco, isso é certo!

Mas que tipo de espetáculos são estes que agora estreias? É um mesclado de tudo o que

fazes e saber fazer?

Não, não tem o ilusionismo nem malabarismo. Cruzo a músico com o lado cénico e de cinema, com o que se visualiza no ecrã gigante. Mas é essencialmente música, apresentando o meu álbum de originais.

Pegando nessas artes, sentes que para levantar Portugal deste impasse político e não só, com muitas tricas e trocas, é preciso um número especial de magia? Que número seria esse e como o farias?
Ahh, isso já não me diz respeito! Se me dissesse respeito eu teria seguido outro caminho. A minha função, de ajudar Portugal e de levantar Portugal, eu acho que a cumpro. Que é a de divertir as pessoas, dar cultura às pessoas, dar-lhes música e teatro, dar-lhes interpretações, pôr as pessoas a pensar e a rir. Isso é a minha função. E eu faço-a. Outros têm outras funções. Se
cada um cumprir com a sua, Portugal erguer-se-á.

Há dois anos estiveste em Rio Tinto com o teu programa «Terra Nossa». O que mais te encantou conhecer nessa cidade?

Lembro-me perfeitamente de ter estado aí. E o que mais me encantou em Rio Tinto é o que mais me encanta em quase todas as cidades do Norte: são as pessoas. A maneira com que te recebem, com que te abrem a porta e o coração. Isso é inesquecível! Foi o que senti em Rio
Tinto, em Gondomar. Claro que depois as pessoas – e já agora aproveito para referir, porque as de Rio Tinto foram umas delas – tendem a não gostar muito quando é na sua terra, ao contrário do que gostam quando é noutras terras. Referem que faltou ir à biblioteca ou à igreja matriz. Ou seja, esse não é um programa cultural! É um programa inteiramente de humor que, por acaso, passou por aquela terra. Mas não é para mostrar essa terra, a sua cultura e património.
Recordas-te de ter vivido algum episódio mais caricato nessas gravações em Rio Tinto ou numa outra vez que tenhas estado no município de Gondomar?

Concretamente em Rio Tinto não me recordo, mas tenho presente uma conversa que tive com um amigo, o Fernando Rocha que é daí natural, que me confessou: houve uma vez uma «festa da espuma» na rotunda principal e eram litros e litros de água e de bastante espuma, que não mais acabava! Até que teve de ir lá resolver isso a polícia e os bombeiros (risos). É difícil lembrar-me de episódios caricatos nas terras por onde passo, porque 99,9% dos programas são em si caricatos.

Queres continuar a representar por muitos anos, até não poderes mais, e tudo aquilo que vais fazendo ou tens outros planos profissionais para o futuro?
Não faço planos para o futuro. É uma das perguntas que não sei responder quando ma fazem. Não sei nem quero saber, mesmo num futuro breve. Sei o que vou fazer neste ano até dezembro. O ano que vem só o começo a preparar em setembro. Isso eu sei, mais do que isso não. No entanto, vejo-me a continuar nesta vida artística, de teatro, de cinema, de televisão. Não sei se à frente das câmaras ou se atrás delas. Eu tenho um escritório onde trabalho: entro às 9 horas e saio às 18 horas todos os dias. Trabalho como se trabalhasse numa multinacional qualquer. Faço sempre esse horário mesmo que, porventura, naquele dia não tenha tanto para fazer. E ali junto sempre a minha equipa toda, onde preparamos textos, a publicidade, o teatro, os semanários, etc..

Esse desprendimento do que virá futuramente pode ser entendido como desleixo ou como forma de te focares no presente, “vivendo um dia de cada vez”?

É exatamente esta segunda opção. O estar livre na minha cabeça para o que preciso, para o aqui e agora. Essa minha maneira de ser e de pensar eu trouxe da improvisação, que funciona muito do “aqui e agora”. Não é mais nada do que isso.

E o que sabes não querer mesmo fazer? E diz algo que gostarias que nunca te acontecesse...
Não vejo assim nada de momento, porque nada me assusta. Há outras profissões que eu adoro e que acho engraçadas. Portanto, não existe nada que não veja a fazer ou que não quisesse fazer.

Abril normalmente é mês da Páscoa e do seu tempo: quais são aquelas tradições pascais que preservas em ti e na tua família?
A tradição normal de nos juntarmos em família à volta da mesa, de fazermos um almoço especial e de comermos o folar. Mas nada mais do que isso.

Há algo nela que gostarias que fosse diferente?

Não, até porque para mim não há nada mais e melhor do que estar junto com a família.Tens participado no programa «Vale Tudo».

Aproveitando este título, pergunto-te se
consideras que nesta vida vale realmente tudo? Mesmo que não seja verdade e/ou que não seja correto nem justo?

Não, nesta vida não vale tudo! Ou não devia valer... Vale tudo dentro dos limites da razoabilidade, do consenso, do respeito pelo outro. Mas tudo o que passe essas barreiras já não vale.
Como ser pensante que és, para ti onde está o mal e problema deste mundo? Já que ao não valer tudo estamos a assistir a coisas surreais, como esta mais recente duma sumidade ao pedir que lhe chupem a língua, entre outras... O que se passa?

Isto daria para uma conversa mais alargada e muito profunda. Quanto ao exemplo dado, da santidade o Dalai Lama o fazer e apesar de justificar que no budismo o mostrar a língua é sinal
de respeito, obviamente que para nós – para a nossa cultura e nossa maneira de ver – é completamente abjeto. Não faz sentido nenhum. Quanto a outros exemplos recentes, como a da confusão de arte com pornografia ou de bestsellers terem de ser reeditados, o que sei é que o mundo avança e nós temos de ir avançando com o mundo. Portanto, há coisas que são as mudanças dos tempos e nós temos de ir acompanhando. É assim com esta geração e outra virá e modificará. É ir vivendo ao sabor do vento.

Como algumas destas coisas são novidades para a tua geração, sentes-te preparado e capaz de ensiná-las aos teus filhotes, tal como a robotização e inteligência artificial?
A Mariana, a minha filha mais velha que tem 14 anos, já começa a ter algumas conversas. Os outros são mais novos. Mas o que ensino, sobretudo, aos meus filhos é a forma de estar e o respeito pelo outro. De resto, o mundo é livre e de partilharmos e convivermos. Há muita
comunicação diária entre mim e os meus filhos. Somos muito próximos. Mas cada dia é um dia e cada descoberta que eles fazem eu estou cá para dar o meu lado, mas essencialmente o respeito e a educação pelo outro é a minha máxima.

E sabes sempre responder às perguntas das crianças, aquelas inesperadas e que por vezes nos deixam surpresos e desprevenidos?

Acabo por saber, porque isso foi o que me deu a improvisação, esse treino de raciocínio, essa fuga trabalhada.

Um dos papéis que escreveste e mais gostaste de interpretar foi «Esperança». Achas que ela é duradoira, que “é a última a morrer” e que se mantém intacta? O que aconselharias à esperança, em si, e a quem a não tem?

A esperança é o que nos move, mais do que ser – como se diz – a última a morrer. Assim é, de facto, em que a temos até ao limite. É a esperança de que algo corra melhor, é a esperança de fazer bem, é a esperança de ir mais longe. Portanto, ela é que nos move sempre. À esperança em si não diria nada. Até porque essa outra é uma personagem criada e interpretada por mim (risos). Quando quisermos dizer alguma coisa à «Esperança» escrevemos-lhe um guião e ela faz uma segunda temporada. (risos)

Ao terminar a entrevista, peço-te uma mensagem alusiva ao que muito e bem te inspira nesta vida, servindo de alento e portento aos nossos leitores...


Não tenho nenhum lema nem citação de autor que inspire. Cada um/a tem de ir buscar o seu lema e citação ou expressão. Não sou nenhum líder espiritual para o fazer. No entanto, e ao termos falado de aspetos essenciais, eis o que poderei realçar para finalizar: é importante que as pessoas vão ao teatro, vão à cultura, que as salas estejam cheias. Sabemos que são anos e tempos difíceis, contudo a Cultura faz muito pela nossa saúde!

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