À medida que dezembro avança e as primeiras luzes se acendem nas ruas, o espírito de Natal volta a reunir famílias espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Para muitos emigrantes, esta é a época em que o regresso a casa se transforma numa tradição tão importante quanto a consoada ou a troca de presentes. Apesar das distâncias e dos fusos horários, dezembro continua a ser sinónimo de reencontros emocionados nos aeroportos e conversas que se prolongam até tarde.
Entre malas cheias de lembranças e saudades acumuladas, o Natal funciona como um ponto de ligação entre gerações que procuram manter vivas as tradições que trouxeram do país de origem. A mesa farta, os pratos típicos e os rituais familiares tornam-se símbolos de identidade cultural, recriados com rigor mesmo em terras estrangeiras. Em muitas comunidades emigrantes, as celebrações tornam-se um momento de afirmação e continuidade, num esforço coletivo para preservar raízes.
Apesar das mudanças no mundo e dos novos desafios da distância, o Natal continua a ser uma força agregadora para quem vive fora do seu país. A data resiste ao tempo como um convite à partilha e ao reencontro, lembrando que, mesmo longe, é possível manter viva a essência de pertença e tradição. Neste período, mais do que nunca, as famílias demonstram que o espírito natalício ultrapassa fronteiras e se fortalece na união.
Fomos conhecer algumas pessoas que, contrariamente ao habitual, visitam as suas famílias no estrangeiro.

Armando Vieira, residente em São Cosme, vai passar o Natal a Worksop, em Inglaterra. O motivo que o leva a viajar é o contacto com o filho, a nora e a neta, porque para ele o Natal é em família. “Na consoada tentamos sempre manter as nossas tradições portuguesas, mas o meu filho prefere comer polvo assado (risos). Como não podemos levar nada no avião vamos a Manchester, que fica a uma hora de casa dele, e compramos o bolo-rei, o pão-de-ló e outras coisas típicas do nosso país”.
Alfredo Pinto, residente em Medas, vai para França ter com as duas filhas. Algo que já é habitual visto a facilidade logística para toda a família. “É um pouco diferente, no que toca as tradições, de entradas comemos ostras e champagne (risos), claro que o bacalhau não pode faltar numa mesa portuguesa. Acabamos por juntar as duas culturas, a francesa e a portuguesa”.

Maria Filomena Rocha, de Fânzeres, vai passar o Natal ao Brasil pelo segundo ano consecutivo, juntamente com a nora, o filho e os netos. “As tradições são diferentes. Eles comem galo no Natal e o a consoada não se prolonga pela noite dentro e muito menos pelo dia a seguir. Após a entrega dos presentes cada um vai para sua casa. Claro que quando quero bacalhau tenho de ser eu a fazer (risos), porque não sabem como o demolhar, nem como o preparar para que fique como é tipicamente português. A minha nora costuma chamar “o bacalhau da sogra”. No Brasil não têm esta tradição e as festas são bem mais quentes, devido ao verão que é nesta época”.

António Ferreira, de Labercos, na Lomba, é emigrante e por isso anda sempre entre Portugal e França. O Natal é sempre no país que emigrou, devido aos filhos e netos. “A consoada não é como a portuguesa, até porque as crianças, como já foram criadas lá, não estão habituadas às nossas comidas típicas, por isso tentamos sempre adaptar. Comemos o bacalhau para manter a tradição, mas de entradas temos mais marico e fuagrá, que é um fígado gordo. Nas sobremesas o típico é a buche de noel, um género de tarte decorada de forma natalícia com vários cremes. O essencial é estarmos juntos com ou sem tradições portuguesas (risos)”.