Concelho de Gondomar Cultura

Declaração Pública do Fotógrafo de Natureza e Realizador de Documentários Naturais, Paulo Ferreira

DOC “Entre Moinhos e Natureza Selvagem”

Olá, gondomarenses.

A maioria talvez não me conheça, mas sou filho desta terra. Gondomarense por orgulho e por raiz. Trago gravado no olhar e na memória o Alto Concelho — Melres e Medas — como o lugar que me viu nascer, crescer e aprender a escutar a natureza. Foi ali que aprendi a olhar devagar, a respeitar o silêncio, a cheirar o pinho aquecido pelo sol e a ouvir as pinhas a estalar no verão. Foi ali que aprendi a seguir o voo das aves e o correr da água nos ribeiros que desaguavam no Rio Douro.

Foi ali que frequentei a escola primária, atravessando todos os dias um ribeiro que, no inverno, se tornava um verdadeiro obstáculo natural. Não havia a quem me queixar, nem existiam redes sociais para mostrar essa pequena grande aventura. Havia apenas caminho, coragem e descoberta.

Foi também ali que nasceu o meu amor pela fotografia de natureza e, mais tarde, pela realização de documentários. Ao longo dos anos — difíceis por natureza e marcados por uma grande mudança na minha vida profissional — esse caminho levou-me a filmar a vida selvagem um pouco por todo o mundo. Mas é sempre ali que o coração regressa. Filmar a natureza é, para mim, devolver à terra um pouco daquilo que ela me deu.

E foi nesse percurso que encontrei os Moinhos de Jancido, um lugar pacato, discreto, quase escondido… e que desde o primeiro instante me fascinou.

Este documentário nasce num recanto da margem esquerda do rio Sousa. Um lugar escondido entre socalcos verdes e memórias antigas. Os Moinhos de Jancido estiveram durante décadas quase submersos no tempo. Silenciosos. Esquecidos. Até que algo extraordinário aconteceu. Não foi um milagre rápido. Foi um milagre feito de mãos, de persistência e de amor. Uma história escrita não com palavras, mas com ações.

Essa história tem nome: Rapazes de Jancido.

Desde já o meu obrigado.

Aos sábados à tarde, sem holofotes, sem recompensas, homens e mulheres de várias idades reúnem-se ali. Começaram por levantar pedras caídas. Depois reabriram trilhos. Depois devolveram vida às ribeiras. E, quase sem darem por isso, devolveram também dignidade à paisagem. Onde chegou o ser humano com respeito, a natureza respondeu. A vida selvagem regressou. A biodiversidade aumentou. E com ela voltou o equilíbrio.

Hoje, onde antes havia lixo e abandono, correm águas mais limpas. O solo respira. Musgos, fetos, urzes e flores silvestres pintam novamente as encostas. Cada espécie que reaparece é um aplauso silencioso ao trabalho destes guardiões da terra.

Depois, quando olhamos mais de perto, descobrimos o pequeno mundo invisível. As dedaleiras, incluindo aquela rara dedaleira-branca nascida de uma mutação improvável. Os insetos — esses verdadeiros engenheiros da vida — que polinizam, reciclam, constroem e sustentam o mundo. As abelhas em enxameação. As aranhas, com as suas arquiteturas delicadas e mortais. Até um fungo estranho, digno de filme de terror, que revela como até a morte faz parte do ciclo da vida.

As borboletas, delicadas e efémeras, lembram-nos a beleza da transformação. As formigas ensinam-nos organização e cooperação. As libélulas denunciam a pureza da água. Até uma simples lesma, ao alimentar-se vagarosamente de um açafrão-de-outono, nos mostra como a vida se cumpre também em gestos lentos.

E depois há o rio.

O rio Sousa corre junto aos moinhos como uma veia viva desta paisagem. Espelho das árvores, berço de vida, corredor ecológico, filtro natural. O seu silêncio ensina-nos a ouvir melhor. Ensina-nos a escutar o que normalmente ignoramos. Quem aprende a fazer silêncio na natureza começa a ouvir a vida.

E a vida revela-se em toda a sua diversidade: a lontra, sinal de água pura; a raposa, sentinela da noite; o texugo, jardineiro da floresta; as garças, elegantes vigilantes das margens; o cuco, mensageiro da primavera; as águias, que patrulham os céus; o guarda-rios, flecha azul sobre a água; as salamandras, frágeis e preciosas; os sapos, aliados da agricultura; os corvos-marinhos, figuras negras no inverno; os pica-paus, escultores da madeira; o esquilo-vermelho, regresso histórico à floresta; a gineta, sombra elegante entre as árvores.

Cada espécie conta-nos uma história. Cada espécie lembra-nos que este território está vivo.

Quando o sol se esconde, nasce outro mundo. O mundo noturno. O noitibó canta como um sussurro antigo. E, por entre as ervas, os pirilampos acendem pequenas luzes, frágeis sinais de esperança numa noite cada vez mais ameaçada pela poluição luminosa. A sua luz não é fogo. É linguagem. É chamamento. É vida a tentar continuar.

E depois há o céu.

Num tempo em que as cidades apagaram as estrelas, Jancido ainda guarda a escuridão saudável. Aqui, a poucos quilómetros do Porto, ainda podemos levantar os olhos e lembrar-nos que somos pequenos. Ver as estrelas é recordar que fazemos parte de algo maior. Quando deixarmos de olhar para o céu, deixaremos também de perceber a grandeza da vida.

O epílogo deste filme não fala apenas de moinhos. Fala de pessoas. Fala de responsabilidade. Fala de futuro. Jancido é hoje um exemplo de que é possível reparar, cuidar, devolver vida. E é também um aviso: a natureza não precisa de nós. Mas nós precisamos desesperadamente dela.

Este documentário estreou no dia 30 de novembro, na SIC, num domingo, entre as 12h e as 13h. E mais de meio milhão de pessoas assistiram em direto. Esse número não me pertence. Pertence à força destas paisagens. Pertence aos Rapazes de Jancido. Pertence à natureza.

Se este filme servir apenas para que uma pessoa passe a olhar o mundo com mais respeito, e para que esse respeito seja herdado pelas gerações que vêm depois de nós, então tudo já valeu a pena. Porque a beleza está nas estrelas, nas águas, nos olhos de uma raposa…
E nas mãos de quem decide agir, não com palavras, mas com ações.

Como pode ser belo, o nosso mundo!

Conheçam mais documentários em: www.pauloferreira.pt

 

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