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Carlos Carvalho: “Corremos o risco de haver jogos que fiquem sem árbitros, como já aconteceu”

Iniciou a atividade desportiva no Sport Comércio e Salgueiros em 1965. Em 1977 entra para a arbitragem, carreira que se prolongou pelo dirigismo após o abandono dos relvados. Carlos Carvalho é o atual Presidente do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol do Porto, e esteve à conversa com o jornal VivaCidade.

Conte-nos um pouco do seu percurso no desporto.

Estou ligado ao desporto desde 1965. Comecei a minha atividade desportiva no Sport Comércio e Salgueiros, onde pratiquei atletismo tendo sido campeão distrital. Até hoje ainda sou o membro da direção mais novo da Associação 1º de Dezembro, onde fundei a secção de ténis de mesa que obrigou a alterações na associação que à época não incluía nos estatutos qualquer atividade desportiva.

Entre 1971 e 74 fui cumprir o Serviço Militar Obrigatório. Quando regressei, um dos meus chefes de então tinha sido árbitro internacional e, numa conversa informal, desafiou-me a fazer o curso de árbitros porque eu apitava uns jogos amadores no campo do Gondomar. Em janeiro de 1977 fiz o curso, que terminou no dia 5 de maio do mesmo ano e desde então fiz o meu percurso de árbitro desde a distrital até aos jogos internacionais.

Em 1994 abandonei a arbitragem por decisão pessoal, mesmo antes de atingir a idade limite. Na altura fui convidado pelo então presidente da Associação de Futebol do Porto (AFP), para ocupar um lugar como vogal no Conselho de Arbitragem, e em 1997 sou convidado a assumir a presidência interina do mesmo órgão.

Em 1998, pela primeira vez, há eleições na AFP para o Conselho de Arbitragem. Até lá se o presidente da direção acordasse mal disposto podia demitir o Conselho sem problemas. Em 1998 torno-me assim o primeiro árbitro presidente do Conselho de Arbitragem. No dia 11 de dezembro de 2011 fui convidado para ir para o Conselho de Arbitragem da FPF, presidido pelo Vítor Pereira, como vice-presidente da secção não-profissional, cargo que mantive até 2016.

Em 2016 o Fernando Gomes convidou-me para regressar ao Conselho de Arbitragem da AFP. Havia na altura o caso Canelas e foi-me solicitado que ficasse para ajudar a solucionar o caso porque quem me tinha substituído não tinha sido capaz de o fazer. Foi assim que assumi o cargo onde me mantenho até hoje.

Temos um orgulho tremendo no trabalho feito, somos o Conselho de Arbitragem com mais árbitros e mais árbitros no primeiro escalão. Temos o maior número de árbitros em C4, C3 e C2, somos um Conselho de trabalho e queremos continuar enquanto a saúde nos permitir. Um dos objetivos é enobrecer a instituição a que pertencemos que é a Associação de Futebol do Porto.

Tantos anos ligado ao desporto, mais concretamente à arbitragem, terá certamente momentos que o marcam. Consegue destacar dois?

Pela negativa foi num Sanjoanense – Gil Vicente em que tive que sair fardado de polícia, no dia em que o meu falecido pai fazia anos. Tive que emprestar a minha roupa a um polícia e ele a farda a mim para conseguir sair em segurança. Tinha comprado um carro novo na sexta feira anterior que ficou completamente desfeito.

Pela positiva, a maior alegria que poderia ter é alcançar todas as metas que me sempre me propus. Das mais, às menos insignificantes. Estive em Wembley e Camp Nou, por exemplo, são memórias que ficam para toda a vida.

Referiu que a AFP é a mais representada entre os árbitros da Primeira Liga. Isto é também reflexo da qualidade dos árbitros desta região?

Eu nunca direi que são os melhores. Como em qualquer outro setor, também na arbitragem há os bons e os menos bons.

Eu costumo usar uma comparação, há árbitros que são Messis e outros são Cristianos Ronaldos, ou seja, uns nascem com muito jeito, outros, como o Cristiano, têm que trabalhar muito para conseguir um determinado patamar de excelência, mas conseguem. 

Há uma coisa que sublinho sempre, não é importante a origem dos árbitros, o que interessa é que sejam os melhores e que desempenhem a sua função da melhor forma.

Hoje em dia um árbitro é um vendedor de técnicas de arbitragem. Tem que vender as suas decisões para dentro de campo e para todos os espectadores que estão de volta.

A arbitragem portuense tem estado em destaque com vários internacionais em diferentes competições, desde o futsal ao futebol de praia. É um motivo de orgulho para si?

Essa pergunta só tem uma resposta, eu já não tenho mais condecorações para receber. Isto quer dizer que o trabalho que temos desenvolvido ao longo dos anos está a ser bem feito.

Quando somos reconhecidos, pelas câmaras de Gondomar e Baião, onde nasci, pela própria Associação e da Federação, pelo Governo… isto só quer dizer que ao longo dos anos vamos tendo o nosso trabalho reconhecido. Um trabalho desenvolvido em prol de um hobbie que tanto gostamos.

Continua a olhar para a arbitragem como um hobbie?

Sim, porque o nosso ganho é bola, como costumo dizer (risos). É preciso gostar mesmo muito.

Ver o Artur Soares Dias ou o Jorge de Sousa começarem meninos e atingirem as carreiras que atingiram, o Sérgio Soares começar e ser um dos melhores do mundo, ver o António Almeida que acabou recentemente como árbitro de futebol de praia, é uma grande satisfação.

Há uma coisa que muitos desconhecem, a Associação de Futebol do Porto é a única que tem árbitros em todas as associações do país. Infelizmente o regulamento de arbitragem permite o que permitem outras associações, basta indicarmos dois árbitros por ano para o quadro nacional.

Uma das coisas que debatemos é a introdução do método de Hondt na arbitragem, devemos indicar o número de árbitros proporcionalmente ao número de árbitros que temos. A partir daí é o valor de cada um que conta.

É mais difícil ser árbitro agora ou quando começou?

Sem dúvida que hoje é mais difícil. Os pais que acompanham os meninos estragam os seus filhos com os comentários que fazem.

Esses pais deviam pensar que aquele árbitro que ali está também podia ser filho deles e que também está a aprender, também está ai para se formar, e isso é esquecido na maior parte das vezes.

Eu se hoje tivesse oito ou nove anos e visse o meu pai na bancada a insultar o árbitro, ou ele não ia mais comigo ou desistia eu do futebol.

Recentemente vimos uma jornada ser adiada, em Lisboa, devido ao avolumar de agressões contra os árbitros. Como dirigente, como olha para esta situação?

Preocupa-nos muito, afasta alguns jovens com potencial da arbitragem.

Os clubes queixam-se que muitas vezes os jogos não têm árbitros, mas nós sentimo-nos impotentes para regularizar determinadas situações.

O Presidente da Associação de Futebol do Porto, José Neves, tem pressionado muito o Secretário de Estado para que haja uma alteração às leis que leve a que a situação se altere. Corremos o risco de haver jogos que fiquem sem árbitros, como já aconteceu.

Quem está na bancada deve pensar que aquele árbitro que está ali no campo pode ser da sua família, por isso devemos respeitar o seu trabalho.

Hoje temos o problema das redes sociais, é fácil usar estes meios para falar mal de tudo e de todos, incendiando ainda mais posições que são já potencialmente violentas.

Ainda tem algum objetivo por cumprir?

Os objetivos enquanto dirigente é dar continuidade ao que tem vindo a ser feito.

O atual presidente da AFP é um homem que admiro, que luta pelo organismo e que gosta da arbitragem, lutando para que façamos o nosso trabalho nas melhores condições.

Com o centro de formação que a associação vai construir vamos ter um desenvolvimento muito grande da modalidade em todas as suas vertentes. Gostava de ter saúde para ver essa obra concluída, lá para o final de 2024. Dessa forma acredito que vamos ver a nossa associação crescer muito mais.

Estamos a fazer uma forte aposta no feminino para termos mais mulheres na arbitragem e no dirigismo. O nosso objetivo é atingir o topo, é algo difícil mas não é impossível.

A nível pessoal, o maior sonho da vida é que a minha neta cresça e seja feliz.

No dia em que abandonar definitivamente a arbitragem, de que forma gostaria de ser recordado?

Às vezes tenho alguma vaidade em mim mesmo de ser conhecido a nível nacional. Nas intervenções que diversas personalidades fazem, referem-se a mim como o melhor dirigente de sempre.

Não gosto muito que digam isso, é o nosso trabalho que prova o nosso valor. Palavras são palavras.

Quero que o meu trabalho seja reconhecido amanhã, pelo meu filho e pela minha neta. Que ela sinta orgulho no legado que o avô deixou, especialmente enquanto homem, porque enquanto dirigentes somos efémeros, hoje somos amanhã não.

Como homem  quero que reconheçam em mim a integridade, a honestidade e o contributo para o desenvolvimento de centenas de jovens, ajudando-os a ter um rumo na vida.

Se estivesse agora perante um jovem a iniciar a sua carreira na arbitragem, que conselho lhe daria?

Perguntava desde logo se gosta do que quer fazer, se sim, então resta trabalhar, trabalhar e trabalhar. 

Hoje em dia temos meios tecnológicos ao nosso dispor, temos que filmar os nossos jogos e ter técnicos a trabalhar connosco. O que podemos ganhar com a arbitragem é um extra, há uma parte que temos que investir em alguém que trabalhe connosco para que possamos melhorar.

Um árbitro hoje não basta saber dirigir bem um jogo de futebol, tem que dominar a língua inglesa, tem que ser um comunicador, um gestor de ser humanos e, se pudermos também ter formação de primeiros socorros, ainda melhor. 

Um árbitro é muito mais do que função que desempenha dentro do campo, é um ser humano que pode ajudar aqueles que muitas vezes lutam contra nós.

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